Cai sempre bem defender aquilo de que se não beneficia. Convém aos beneficiários ter o apoio de um desinteressado, mesmo que desinteressante, que conceda às causas a cor da legitimidade, da justiça e da equidade que elas não teriam se defendidas apenas por quem tem algo a ganhar ou tudo a perder. E o opressor tresmalhado que faz a doação, adquire, com esse apoio, um capital não negligenciável de respeito, quantas vezes acompanhado de despeito, por ter abdicado do seu conforto para dar parte da vida, regra geral estúpida e, por isso, necessitada de uma causa, pelo bem-estar de outros.

Um branco que luta contra o racismo. Um homem que se insurge contra o machismo. Um heterossexual que se declara favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Um católico que defende a despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Um cidadão nado, criado e pleno que advoga o alastramento dos direitos de cidadania aos metecos. Um inimputável que agride o Berlusconi com uma miniatura do Duomo. Um macho procriador da espécie que utiliza o feminino generalizante. Um desempregado faminto que se bate pela manutenção do capitalismo desregulado. Neste último caso, de sentido inverso aos anteriores, é possível que se trate apenas de uma avaria na consciência e não propriamente de abnegação, mas, para o efeito, também serve.

Incapaz de pertencer convictamente a maiorias socialmente relevantes, e depois me ter sido revelado que tenho um problema de liquidez simbólica, restou-me a opção de apoiar a actual legislação antitabágica na qualidade de fumador. É verdade que, uma vez que a actual legislação permite o fumo em casa, na rua, nos estabelecimentos de diversão nocturna decentes e em zonas aprazíveis reservadas para o efeito nos hospitais psiquiátricos — os quatro tipos de espaço em que passo a quase totalidade do meu tempo —, praticamente não dei pela entrada em vigor da lei. Já lá vão uns anos, dizem. Sei que as minhas limitações turvam a limpidez do meu activismo e que a fragilidade associada a todos os estatutos que posso activar retiram benefício aos potenciais beneficiários. Que lhes infecto a causa. Mas isso são os riscos decorrentes do exercício da actividade comercial com que quem anda nisto tem de se arranjar.

2010.01.11