O papel do fortuito não deve ser menosprezado no correr da História. Certo: mesmo recusando o fatalismo, é inevitável que, ao olharmos o passado, vejamos uma sequência de acontecimentos com um sentido que os encadeia a caminho de um desfecho que nos aparece como inevitável. Esta inescapabilidade torna os exercícios habitualmente designados de «história alternativa» úteis para percebermos o quão reles, aleatória e desprezível é a nossa existência. Muito mais que a «ficção histórica» das montras da Bertrand, a «história alternativa» implica ou, pelo menos convida, a um verdadeiro questionamento desse tal malfadado sentido que atribuímos àquilo que aparenta ser uma torrente ordenada de acontecimentos. Também obriga a olhar para o papel ou, nos casos fraquinhos, função, dos vários actores (individuais e colectivos, humanos e não humanos) na construção do nosso destino, essa coisa do passado que muitos insistem em ver no futuro.

Alguns destes ensaios foram já várias vezes propostos e passados a volume e película, de forma mais ou menos delirante, mas os resultados nunca lhes permitiram mais que encaixar-se num pequeno nicho da produção cultural. Para que se possa tornar um género maior do século que só daqui a uns bons oitenta anos, quando já se conseguir dar a tudo isto a porcaria do sentido, poderemos nomear, a «história alternativa» terá de se redefinir. E essa redefinição, que por certo implicará uma renomeação, deve passar pela aposição a um dado momento pretérito de um elemento em que ele teria sido impossível e, a partir daí, reconstruir todo o horror subsequente. Alguns exemplos.

Se houvesse um grupo de jovens locais da rede ex aequo na Tarso do dealbar da nossa era, teria o Paulo de lá manifestado um distúrbio de somatização de forma tão tragicamente consequente na estrada para Damasco? Se a neve tivesse chegado a Moscovo uma semana mais tarde em 1941, teríamos tido o Jacques Delors na Gulbenkian a semana passada? Se o grupo de jovens locais da rede ex aequo de Leiria tivesse sido fundado no início dos 1900, Alvaiázere ainda existiria? Se o radialista tivesse trocado os discos, não teria o 25 de Abril sido a 26? Se houvesse um grupo de jovens locais da rede ex aequo em Viseu há cinquenta anos, que sotaque teria hoje a maioria dos padres? Se o incidente de Tunguska tivesse ocorrido meia hora mais tarde, que papel ocuparia Saraievo na cultura do século que ainda tentamos nomear? Se o grupo de jovens locais da rede ex aequo de Cascais tivesse aberto a tempo de apanhar os jovens príncipes nos tempos de vilegiatura, quantos anos de república estaríamos agora a celebrar?

Este exercício, algures entre a «ficção humanística histórica alternativa», o anacronismo e a toma de medicação fora do prazo de validade também não é novo. Já foi muitas vezes utilizado por várias correntes artísticas e de pensamento do século passado. Mas foi-o sempre com vista a objectivos diferentes, demasiado ambiciosos, e baseando-se em pressupostos outros. No caso da minha proposta, não existe uma invocação ao futuro e muito menos uma interrogação sobre o lugar dos grandes símios no universo, ou em qualquer outro putativo lugar mais aprazível. Não: a minha pretensão é a de descer as expectativas e trabalhar sobre as ambições por que nos podemos responsabilizar: o quotidiano presente e os quotidianos passados são tudo o que temos e a eles nos devemos cingir. O resto é de cordel.

2010.01.22