Já viste como as ruas da cidade estão vazias, que é como estão sempre que precisamos delas cheias? Por isso fiquei em casa, a quebrar nozes. A semelhança que as metades de miolo de noz partilham com pequenos e ressequidos cérebros humanos agrada-me. Estremeço ao partir as nozes como se estivesse a estalar craniozinhos que esperam na taça, à minha mão de semear, a hora do seu fim enquanto protectores do sagrado. Surpreende-me que os padres ainda não tenham proibido as nozes. Procurei na web e verifiquei que várias pessoas antes de mim repararam na semelhança entre os miolos de noz e os miolos humanos, mas não encontrei nenhum interdito emitido pelas autoridades eclesiásticas. Devem andar distraídas a tentar introduzir na lei fundamental a proibição dos bifinhos com champignons durante a quaresma. São sempre a mesma coisa. É uma vida sem supresas, esta, em que já nem com os inimigos se pode contar.

Passei a tarde toda nisto. Depois comi as nozes todas, que eram para as visitas que nunca chegaram, provavelmente porque não cheguei a convidá-las. A mania que as pessoas têm de não aparecer quando não são convidadas. Nem quero imaginar as calorias que aquilo tinha. Sabes como a minha oralidade se manifesta quando sou assaltada pelas saudades do meu bebé. Aflige-me não saber do meu bebé há tanto tempo. Parecendo que não, vinte anos passam num instante. Não está na cidade, isso é seguro, senão as ruas estariam repletas de gente babada. O meu bebé sempre atraiu multidões. Toda a gente gosta muito do meu bebé. Aliás, é esse o problema. Seria tão mais fácil se eu fosse a única à face deste planeta condenado disposta a protegê-lo de um mundo que o repelisse. Eu sabia que colocar a felicidade do meu bebé acima da permanência do meu bebé não me iria ser fácil, mas nunca pensei que acabasse a ter de me contentar com cerebrozinhos vegetais. É que mal acabo de os comer e volta-me tudo à ideia, como se tivesse sido ontem, e preciso de comer mais. Preocupo-me com o que será dele no novo mundo eléctrico, caso este venha a ser tal e qual o de agora só que com o lítio mais caro. Será que está bem, será que tem quem cuide dele, quem lhe dê a papa? Espero que não, pois aí é que nunca mais lhe ponho a vista em cima.

Desculpa lá o desabafo, mas as ruas estão vazias por ser o dia de um senhor, da estabilização por via institucional da folie à deux e dessas coisas todas cujos vultos se me foram com a ida do meu bebé. Se souberes alguma coisa dele, avisa-me. Se o vires, apanha-o e traz-mo, que qualquer dia não caibo nas calças.

2010.02.02