Encontrámo-nos no Congresso Internacional de Gestores de RH «XIX Festa do Fluxograma de Alpiarça», este ano no dancing Dona Xepa, devido a obras na Casa da Cultura. Já não nos víamos há uma multidão de anos, talvez desde a faculdade. Na verdade não sei ao certo desde quando porque nunca me preocupei com o objecto da demora. Está, como seria previsível, um leitãozinho gordo e estúpido, embora capaz de suster por tempo que baste interacções ocasionais e vagas com seres humanos. Decidiu entrar a matar, perguntando-me pela mulher e pelas miúdas. Resisti à tentação de lhe responder utilizando a palavra «escolvilhão» através de não lhe responder de todo e partir directamente para a minha própria questão de partida. Se ele continuava casado com aquela cabra, só tendão e estúpida, frígida. Ele borrifou-se para as minhas indagações e deu o passo seguinte: o sempre terrível «e onde é que estás a viver?». É uma jogada arriscada, que eu preferi ignorar avançando com a minha nova proposta: o demolidor «e tu, onde estás a trabalhar?». A partir de certa idade, não há desculpa para não se saber que, quando usa uma destas cartas, uma pessoa está-se a pôr a jeito para que o adversário lance mão da outra. Mas a expressão facial dele acusou o toque. Houve uma hesitação, a que se seguiu um vaguear dos olhos por alguém imaginário que pudesse passar atrás de mim, terminada pela observação de que tinha «falado» com uma putativa colega nossa sem cara a que eu possa juntar o nome. Uma atrasada qualquer que está agora à frente do gabinete de não sei quê da não sei quantos em não sei onde. Uma clara rendição, portanto. Sempre foi um fraco, pusilânime, daqueles que noutros contextos teriam sido grandes e depois fuzilados ou, o que vai mais de acordo com a teoria, só fuzilados. Magnânime, concedi-lhe a paz devida a quem tão bem conseguiu dispersar a exuberância da dor e perguntei-lhe pelo carro. Apaziguado, mas sem disfarçar que se iria ficar pelos serviços mínimos, pretendeu informações pouco detalhadas acerca do meu terminal. Antes que se nos acabassem os argumentos, assumi as funções de macho alfa, encerrei a sessão, despedi-me até um dia destes e cada um foi à sua vida. A dele o vazio; a minha, o cheio.

2010.02.07