Isto explica-se de forma muito simples. Eu não sei, porque não estava lá, mas não me custa nada imaginar a orgia de referências que, após uma directa, conduziu à opção pelo xisto. Afinal, já cá ando há uns tempos e tenho a pretensão de compreender um pouco dos mecanismos de valorização profssional de quem se encontra rachado ao meio pela divisão dos saberes. A modernidade, independentemente do ordinal, adjectivo ou prefixo de que a façam acompanhar-se, não é menos fodida do que o que a precedeu e as gentes, para lá dos eufemismos, hipérboles ou metáforas por que as substituam, continuam a ter de se virar para algum lado. O percurso dramático do Mondego pelo vale encaixado, a barca e as gentes serranas, a herança dos afluentes que cedem lugar à artificialidade, a desarrumação orográfica e cromática da Alta. Ver tudo isto condensado numa rocha metamórfica, angulosa e rude, que enfatiza a natureza dual da região — rural/urbano, montanha/planície, modernidade/tradição, litoral/interior, doutores/labregos — e que, para mais, serve como elemento decorativo que se integra na geometria do parque, ao mesmo tempo que lhe corta a frieza ainda pouco arborizada com um toque de rusticidade, é o sonho de qualquer arquitecto que se preze. Eu, se o fosse, teria tido um momento de intensa excitação ao chegar àquela escolha de materiais. Nem sei se o meu coração teria aguentado.

Para quem não é artista, mas apenas mero biciclante que se preze, o que não aguenta é a coluna vertebral, caso as vénias e os salamaleques ainda a não tenham obliterado. Estamos a falar de uma ciclovia com o piso em placas de xisto alinhadas verticalmente. Intensa excitação não é, de todo, o que se sente quando há que — há que! — percorrer aquele chão de lâminas rombas inserido no «percurso ciclopedonal». O que se sente são dores várias, todas elas intensas, todas elas a desembocar na carteira dos contribuintes, nos cofres do Estado e na minha alma, que sofre com os desmandos de quem com esta arrogância se apoderou do espaço até há pouco entregue ao vazio do povo. Como disse, isto explica-se de forma muito simples: formação ao longo da vida em ciclismo lúdico, para que aos impostores não fosse possível o esquecimento de como funciona e para que serve aquela estranha geringonça de duas rodas, seria o suficiente. Se essa formação incluísse uma boa dose do seu próprio veneno, sob a forma de aulas práticas, isso seria o ideal. Declaro-me desde já disponível para o papel do justo algoz.

2010.02.09