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Aubiana
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O coração dele batia mais rápido quando a tomava pela cintura. Ela sentia-se voar quando o media pelas clavículas. Viviam um amor silvestre, numa quintinha dos arredores atravessada por um regato fresco e rumorejante, por entre lírios e ao som de passeriformes. Tinham uma actividade sexual entre trinta e quarenta por cento acima da média dos casais da sua idade na UE27. Faziam brincadeiras vespertinas com os dedos dos pés. X ficava triste quando Y tinha dói-dói. Tinham aderido a um tarifário com chamadas grátis entre os dois por apenas mais cinco euros por mês. Planeavam inundar a terra habitável com uma imensa prole. |
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Esperteza de musaranho
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O musaranho-dos-canaviais (Sorex bardissimus) é um pequeno mamífero que habita várias regiões lagunares da Península Ibérica. O musaranho-dos-canaviais quase não dorme e vive solitário, exceptuando curtos períodos anuais de acasalamento, comendo incessantemente os pequenos insectos que constituem a base da sua alimentação. O musaranho-dos-canaviais apresenta sinais de adesão a uma concepção de liberdade que, embora acidentalmente tingida de Kant, desemboca num individualismo instransigente, cego e bastante improdutivo. Não é que o musaranho-dos-canaviais seja estúpido, não foi é feito para certas coisas. O musaranho-dos-canaviais é um bicho bastante do mato que só raramente interrompe o seu trabalho de sobrevivência (ou vice-versa) entre o restolho e sai a terreno descoberto para apanhar um pouco de sol. Mesmo nesses momentos, o musaranho-dos-canaviais adopta a postura recurvada de quem não se sente seguro e emite constantemente os guinchos ultrassónicos de que depende para situar. O musaranho-dos-canaviais gosta muito de se situar. Mas é nesses breves momentos que o musaranho-dos-canaviais se torna vítima da mosca-chinfrineira.
A mosca-chinfrineira (Phaenicia sonitus) é um díptero que se alimenta de artrópodes ainda mais pequenos que ele e que habita vastas regiões da Europa e Ásia, incluindo as regiões lagunares habitadas pelo musaranho-dos-canaviais. A mosca-chinfrineira é conhecida pelo irritante zumbido que produz durante a época de acasalamento e que, dizem algumas lendas, pode levar uma pessoa à loucura ao fim de apenas trinta segundos. A mosca-chinfrineira está sempre em época de acasalamento e as fêmeas apenas se silenciam quando estão vai que não vai para depositar os ovos. Os machos nunca se calam, mas felizmente existem em muito menor número que as fêmeas. A Mãe Natureza pode ser um bocado porca, mas nem por isso deixa de ser sábia. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Adiante. A mosca-chinfrineira deposita os ovos no musaranho-dos-canaviais, quando o encontra num dos seus breves momentos de estabilização psicológica ao sol. A mosca-chinfrineira pousa no musaranho-dos-canaviais, pica o musaranho-dos-canaviais e deposita os ovos na camada adiposa que o musaranho-dos-canaviais tem por baixo pele. Passados uns dias, os ovos da mosca-chinfrineira eclodem na banha do musaranho-dos-canaviais, da qual as larvas se alimentam na sua fase inicial de crescimento. Quando as larvas da mosca-chinfrineira atingem aproximadamente o quádruplo do seu tamanho inicial, uma infecção subcutânea alastra pelo pequeno corpo do musaranho-dos-canaviais, provocando-lhe uma dolorosa morte de chagas e pústulas. Mas, uma vez que o musaranho-dos-canaviais ainda não está ameaçado de extinção, nada disto importa. Da mosca-chinfrineira nem falar mais é bom. |
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A Grande Máquina Cósmica
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Fui ao W.C. das ex-galerias abandonadas. Uma parte das lâmpadas estava esvaída, dando espaço uma vibração insalubre. As cabinas, com excepção de uma, usavam a ausência de portas para exibir a todos, temerários e temerosos por igual, o espectáculo das pequenas e médias misérias humanas. A excepção com porta estava, na ocasião, ocupada por alguém que, com vigoroso cometimento, se encarregava de a não fazer destoar do conjunto. O cheiro, abominável, era impossível de suportar por mais que uns segundos com o nariz a descoberto. O chão, uma extensa poça rasa nascida do descuido e da agonia da canalização. Escolhi o terceiro mictório a contar da entrada. Estava entupido, cheio até ao rebordo com um bom litro de urina escura. Não sei se ainda está assim e, caso esteja, por quanto tempo mais estará: desconheço o carácter da manutenção daquela sentina, mas aparenta ter um período de retorno geológico. Ou então é só um medo religioso de interferir na Grande Máquina Cósmica. Escolhi o espaço mesmo ao lado do «mamo bem» seguido de um velho nove três vagamente obliterado pelos vapores corrosivos. Um pouco abaixo do «sou gay até 30 anos» adido a um nove seis que tem atravessado os anos sem mácula. Usei tinta para acetatos de boa marca, daquelas que não saem nem por nada. Não que dê como provável a hipótese da sua remoção: a lógica dos usufrutuários é de acumulação, não de substituição. Mas fui bem ensinado a jogar pelo seguro. Voltarei lá para verificar o estado do teu número de telemóvel todas as semanas. Certo de que sabes que só me ocupa o teu bem-estar. Sempre à sexta-feira. Fazendo disto minha missão. Às 18:52. Em ponto. Faça sombra ou faça sol. |
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Early Morning Roundness / Dias com menos árvores
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When there is no shape there is round. Round has no shape; no more than a raindrop or a human tear...
And though the organs that focus the world are round, we have never been happy with roundness; how it allows no man to rest. For in roundness there is no place to stop, since all places in roundness are the same.
Thus the itch to square something. To make a box. To find a proportion in a golden mean...
Russell Edson, «Round» |
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A frente, a estrada
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Esta semana fui a Lisboa, por razões que não são da vossa conta. Ao lutar pelo regresso, dei comigo a comer um gelado em frente à Estação de Santa Apolónia, agora limpinha, com bom aspecto e metro, maugrado o estado deplorável em que está o quadro electrónico. Cornetto de manga e iorgurte, da Olá, passe a publicidade. Finda esta empresa, iniciei a de enrolar um cigarro. High Leaf, mortalhas Smoking nº 5 red, slim filter da Rolling, passem as publicidades.
Estava a escassos metros dos semáforos na Infante d. Henrique e, por reflexo, olhei de relance para os carros que acabavam, nesse instante, de parar no vermelho fresquinho. O primeiro de todos na faixa da esquerda, ou seja, na faixa mais distante do passeio em que eu estava a desempenhar as minhas funções, era um modelo alemão grande e preto (acabou-se a publicidade) que transportava o General Ramalho Eanes, ex-presidente da República, e o seu motorista, à frente, e a Dra. Manuela Eanes, ex-primeira-dama, atrás.
O relance serviu para identificar o General, mas uma vez que se tratava, cf. parágrafo anterior, de um mero reflexo, os meus olhos aproveitaram o tempo cada vez mais longo que o meu cérebro demora a processar qualquer tipo de inputs para regressar ao futuro cigarro. Mas, uma vez digerida a informação visual, logo o tal cérebro ordenou aos tais olhos que fossem mais uma vez ao General, para tradução e notas.
O general olhava para mim e, ao ver-me olhar novamente para ele, desviou rapidamente os olhos para outro lado, que neste caso foi a frente, a estrada. Como sou um bocado insolente, deixei os meus fixos no general, deixando as mãos sozinhas no que faltava resolver da sua tarefa. Nem dois segundos foram precisos para que o general cedesse à tentação de olhar novamente para mim, mas ao ver que eu continuava em modo starstruck, virou-se para a frente com um ar mais resoluto.
Houve então uma escolha a fazer. Ficar a olhar para o general na esperança de que ele voltasse a olhar para mim ou procurar outro alvo? Como sou um bocado instável, deixei os meus olhos resvalar pelo carro fora até chegarem ao local ocupado pela ex-primeira-dama. Afundada no banco de trás, A Dra. Manuela Eanes também olhava para mim fixamente. Deixei os meus olhos nos dela durante pouco tempo: o semáforo acabava de virar para o verde e o carro arrancou. A expressão da ex-primeira-dama perturbou-se quase imperceptivelmente, o seu olhar triste desfocou, mudou para um alvo indefinido e voltou, por uma fracção de segundo, a pousar na minha figura. Nesse momento, o carro saiu do meu campo de visão.
Esta última ocorrência não é comparável à descrita uns parágrafos acima (não pretendo quantificar com exactidão), relativa ao cônjuge da pessoa envolvida. A minha intervenção é pura num caso e infecciosa noutro, há uma breve história entre elas que tudo inquina, o contexto mudou. Confesso que senti uma certa frustração por não estar ao lado de alguém a quem pudesse perguntar Tu viste aquela cena? e me respondesse que sim. |
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Fim-de-semana subliminar
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Nunca ando com pensos rápidos. Não é de propósito, mas também não é sem querer. É daquelas coisas. Seja como for, quando uma pessoa resolve sangrar em público, e isto é válido mesmo para públicos pequenos e altamente especializados, deve sempre fazer-se acompanhar dos meios necessários ao controlo da situação, desde os preliminares até aos sublimares. É feio colocar os outros na situação de se sentirem mal por não terem levado aquilo que devias ter sido tu a levar. Que querias que eu fizesse? Que te fizesse um torniquete, que chamasse o cento de doze, que te chupasse a ferida para prevenir infecções? Ali, no meio da rua, perante toda a gente? A menos que tu próprio não esperasses a hemorragia, mas não foi essa a ideia com que fiquei. O que vale é que foi pequena e não fez muita porcaria. Mas continuo sem perceber qual foi a tua ideia. |
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Fim-de-semana esquisito
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Conheces, não conheces? É que, agora que falo nisso, apercebo-me de que no fundo o nosso entendimento de meios silêncios pode ter sido afinal um ajuste de mal-entendidos. Das meias palavras de ambos fez-se um edifício monótono e funcional — mas em que rua? Na nossa? Na minha? Na tua? Na esquina das duas? Partido em módulos por cidades diferentes? Temo que tenhamos produzido um cadáver esquisito sem nunca percebermos que se tratava de um cadáver porque não era suficientemente esquisito. Mas não deixa de ser um cadáver esquisito. Esquisito é também ver-me sem saber se preciso de explicar tudo, só uma parte ou nada. Disto, que pode parecer simples expediente, dependem variáveis cuja existência nem chegas a imaginar, supões ou conheces como a palma da tua mão, consoante o anteriormente exposto. Suponho que, caso ainda não tivesses aqui chegado, se te coloque agora exactamente o mesmo problema, mas compreenderás que, na minha situação actual, e até ter saído daqui, eu me preocupe mais com a tua amigança do ponto de vista do utilizador que com a minha utilidade do ponto de vista da hemostasia. |
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Fim-de-semana alucinante
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Precisei de telefonar-te este fim-de-semana. Da última vez o resultado fora pior que o esperado, mas não ocupei demasiado a cabeça com esse percalço. A verdade, mais vale dizê-la, é que precisava de alguém a quem pudesse, de certa maneira, dizer que voltou a acontecer. Deixei-me cair, empurraram-me, não sei: estou cá outra vez. Nem mesmo a experiência de vezes anteriores me serviu de corda, e o que ganho em saber que é possível sair, perco em vergonha geradora de inacção por ter voltado a entrar. Foi por isso que quis falar contigo, foi por isso que contornei a desavença: porque precisava de expor o meu caso à luz da sua relação com os factores de risco que tão bem conheces e que, por isso, contigo, já não preciso propriamente explicar. Contigo dói menos e isso, nestes momentos, parece-me uma coisa bonita. Ainda peguei no telemóvel, mas pus-me a ver um discurso do Obama no TuTubo e passou-me a vontade. Fica para o próximo fim-de-semana. |
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Auto-retrato no fim de mais uma Primavera
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Jovens
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Não cessa de me espantar a falta de conhecimentos básicos ao nível dos mecanismos de sedução com que os jovens de ontem saíram de onde quer que os jovens de ontem saíam no tempo em que ainda eram os jovens de hoje. |
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Summertime 22
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Gostaria de viver apenas para te fazer feliz. Deixar tudo e cedo erguer para te servir, exigindo quase nada em troca. Manumissão, submissão, tentáculos inescapáveis feitos do melhor que o Atlântico tem para dar. Ao luar, duas vezes por semana por altura da estiagem, ou ao abrigo da chuva no horário de Inverno. Quanto mais útil o dia, maior o valor. Duas prendas por ano, em ocasiões heréticas não militantes, até um sexto dos rendimentos anuais. Aquelas calças que tu sabes, aquela camisa que já te disse, o casaco que te dei, excederam os limites fixados — desconto nas próximas. As indefinições estão cá para serem aproveitadas de forma discricionária, assegurado que esteja o seu concurso para o fim inicialmente estipulado. Deixar tudo e nunca ceder, surdo aos tempos e cego à sazão. Tudo apenas para que possas ser este feliz e não outro feliz qualquer.
Tatjana Doll, Hummer - frontal, 2005 |
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Early afternoon blogs / Menção honrosa
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Como reporás a terra arrastada Para a boca?
Foges e foges E repousas à sombra da velocidade.
E ao extinguires-te dizes Tudo O que podia ser dito Sobre a luz.
[Daniel Faria] |
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Outro mundo
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Conforme certamente sabeis, existe, no concelho de Mortágua (distrito de Viseu, NUTS III de Dão-Lafões), o Santuário de Nosso Senhor do Mundo. Não deixa de ser interessante abordar a busca de alívio para as angústias espirituais através da máxima abrangência geográfica em detrimento da costumeira concentração em áreas bem delimitadas (Nossa Senhora da Arrentela, Nossa Senhora de Fátima), em eventos específicos de cuja reencenação ritual advirá um conjunto de putativas benesses (Nosso Senhor dos Passos), ou num sentimento, maleita ou profundo mal-estar que sejam vectores da tão almejada redenção (Nossa Senhora da Piedade, Nossa Senhora da Agonia, Nossa Senhora dos Aflitos). No entanto, esta estratégia, mesmo conjugada com melhorias significativas ao nível das acessibilidades, não foi suficiente para alterar a dinâmica demográfica do concelho em apreciação: diminuição de 2,97% da população entre 1991 e 2001, fazendo com que a sua densidade populacional fosse, no ano do último recenseamento geral da população, de apenas 41 habitantes por quilómetro quadrado, ou seja, pouco mais de um terço da densidade populacional da totalidade do território nacional à mesma data. As estimativas do Iné para 2006 também não são bonitas de se ver, mas nós, aqui no Agrafo, não trabalhamos com estimativas, especialmente se forem do Iné. As lições a retirar deste caso são de tal forma evidentes que não nos parece necessário maçar-vos mais com este assunto. |
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Pausa para publicidade
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Parque Verde do Mondego (Coimbra) 10 de Junho de 2008 |
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Novo, levantai-vos hoje de
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Daqui a pouco, logo pela primeira luz da manhã, parto rumo ao Norte. Visto o àrmâne, ponho o ròléque-se, meto-me no chiscinco com a minha maria, o husky siberiano, a golden retriever, o PDA com telemóvel 3G e câmara de 4 megapíxeis, o vaio, a minha filha recém-licenciada em medicina e vou a Viana comemorar com o Senhor Presidente de boa parte dos portuguezes o dia da raça. Da nossa raça. O meu mais novo, que anda naquele curseco que as pessoas têm de tirar para poderem passar os dias atrás de um balcão a vender droga e pensos para os calos, fica em casa a estudar, para ver se não chumba outra vez. Se me volta a chumbar, eu, em Agosto, quando formos a caminho do clubemede não sei de quê, deixo-o a ele mais à merda do rafeiro em Fregenal de la Sierra, que diz que lá as pessoas são caridosas com os animais. É dito e feito. |
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Mortinho
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Fartei-me de te procurar. Segui com denodo todas as indicações que me deram. Andei para cima e para baixo, para a esquerda e para a direita. Perguntei exactamente: ninguém sabia. Queria que visses que não fujo de ti. Tencionava dizer-te que me tinha fartado de te procurar. Esperava poder fazer-te meia dúzia de promessas de celofane. Ansiei todo o dia por te ver a cabeça ao longe (mesmo sabendo que a tua cabeça é irreconhecível). Tinha mesmo saudades tuas. Estava mesmo mortinho por te encontrar. |
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Mailer-daemon@
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Deixou de atender, posso assim contá-lo, deixou que o vento lho levasse do alcance e cada vez o chamava menos, mas ele nada abarcava. Sabeis como são os homens, certamente, burros e falhos de entender tudo o que não se tenha cortado e no prato. A culpa é das mães: sabeis como são as mães, certamente, casmurras e aquém de se dar a tudo o que não possam cortar e exultar num pranto. Tantas vezes em desespero, ou por excesso de esmero, fazem-no ao seu coração, e, quando lhes não é permitido o mester, ficam-se assim, com a faca na mão. Fingiu, levemente, no limiar da mentira, prestes à beira da sinceridade, um vício por outro homem da estirpe do que no movimento já só renegava. E o outro, nada de lá ir com os olhos, com a boca, com a mão. Continuava, sempre ao largo, amiúde a prover-se na costa, até entusiasmado por aquilo que ele cria não ser — os homens sempre sabem quando outros são fatias do bolo, é no que dá tanto achego à bitola — sem perceber que o rasgo estava em não ser consigo, e não com o outro com quem vez alguma seria. Parece obtuso, mas não é, é de todos os dias, da vizinha do lado ao mendigo da esquina, de cair ao tropeço nas curvas da vida, vulgar de Perseu e depois de Lineu. Nunca ninguém saberá ao certo até que ocaso tremerá ela no acaso pelo que não fez e devia ter feito. Não fala com alma do aviltamento, muda de tema como mudasse de poiso, muda de poiso como trocasse de afectos, que mudam nunca, pois não é dela largá-los como se fossem porquês. Vive de cedo para juntar retratos, e desde então cada vez o é mais: dessa pena até à cova diz a si própria ser condição do seu feliz cumprimento. Tem talvez susto de afirmar a recusa, deslustre na covardia que de nada a escusa, e abre os olhos muito, muito, para secar o que não sobe da razão. Quando me contaram esta estória tão triste, fiquei de quase meter dó, tal era o agasto em que todos me viam. |
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Kierkegaard reencarna em filha de pescador das Caxinas
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Hoje fui até ao rio. Percorri as ruas da cidade banhada pela luz da manhã já com o tijolo amarrado ao pescoço, o que chamou a atenção de alguns transeuntes que traziam já amarradas cada qual à sua cabeça cada qual a sua cara mal dormida. Tive um acesso de vergonha pequenòburguêsa, voltei para casa, vesti-me e agora estou aqui.
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Lançado concurso para troço Poceirão-Caia
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Lá fui ver, com grande sacrifício para aquilo a que a modernidade nos habituou a chamar «vida pessoal», o Pedro Mexia n’«Os Livros Ardem Mal». Estava lá uma percentagem considerável da blogosphera de Coimbra, se quereis saber, como o Luís e alguns autores (masculino generalizante) que provavelmente preferem que eu os (masculino generalizante) não enlace em posta, para que se não desconfie que, entre os seus contactos, se conta alguém da minha laia. Eu, pelo menos, no lugar deles (masculino generalizante), também o preferiria.
Antes do início, quando estava sentado na escadaria do TAGV a drogar-me, vi uma jovem mulher que, nitidamente, esperava por uma companhia com quem iria assistir ao evento. Estava de pé, junto à entrada do teatro, vestida como quem vem de um emprego em que uma formalidade e contenção acima da média lhe são exigidas. Inclino-me mais para o escritório de advocacia que para o balcão do banco ou o impingimento de cartões de crédito. Também poderia ser RP, mas estamos, recordo, em Coimbra. Elegante, com a expressão de quem só deixa a ansiedade sobrepor-se à serenidade quando a ocasião assim lho exige, olhava insistentemente para a rua, tanto mais insistentemente quanto a hora dezoito se aproximava.
Convenci-me de que se tratava de Miss Allen à espera de Miss Woody. Quando, já no foyer onde decorria a conversa, a jovem mulher se sentou na mesa imediatamente atrás da minha acompanhada de uma outra jovem mulher, esta loura e feérica (para quem gosta do género, pelo menos, presumo, se não estou em erro), verifiquei, mais uma vez, o quão subestimadas pelo vulgo são as minhas suposições.
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Crise na aviação comercial agrava-se com subida do preço do petróleo
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Queda de bancada em Santiago do Cacém faz cinquenta e nove feridos ligeiros
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Apetecia-me hoje falar-vos da luz da manhã, das suas características físicas, das suas propriedades terapêuticas, do seu papel na deformação da minha fascinante personalidade. De como é muito melhor para tantas coisas que a luz da tarde. Mas não consigo. Há muito que sei desta minha incapacidade, bem como do meu jeito para esquecê-la. Por isso, aqui vai, preto no branco, em letra de forma, bradado aos sete ventos: fui desfeito para isto.
Agora é oficial, não há como escapar-lhe, acompanhar-me-á todos os dias. Sempre que tiver de falar sobre a luz da manhã, o diabo a carregue, terei sempre presente que estou a falar de algo para o qual fui desfeito, que, de certa forma, estou a fazer aquilo que não devia fazer, que alguém poderia estar a fazer muito melhor que eu. Que só estou a falar da luz da manhã porque tem de ser, porque esperam de mim que eu fale da luz da manhã. Tudo será, a partir de agora, muito mais penoso e enriquecedor.
Levantou-se-me um taco com a (h)umidade. Fundiu-se-me a lâmpada do forno de micro-ondas. A racha no canto da salinha de leitura agravou-se com os tempos. Fumar mata. A ver se amanhã me mudam o óleo. A ver ainda se ainda esta semana ainda passo por aí. Desconfio que andam a brincar comigo, mas se calhar é paranóia. É isto. É tudo.
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oãzar a redreP
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Sempre insinuada nestas alturas, parece-me ingénua e autocomplacente a fantasia de que o eventual sucesso da selecção portuguesa de futebol não contribui de forma sensível para o atordoamento da nossa vida colectiva. Mais distraídos, não será por isso que passaremos então a preocupar-nos menos com os temas que realmente importam, como a leitura, a política, a produção de abóbora-menina e a natação sincronizada. E é para não colaborar nesse clamor nefasto que alimento, em centenas de horas de sofá a ver o Canal Panda, o sentido crítico que me esforço por manter.
A verdade é que, como muitos outros compatriotas, não gosto de futebol e sinto profunda aversão pelo meio em si. Aflige-me a obsessão mediática pela mialgia do Cristiano, pelo furúnculo do Deco, pela chisboxe do filho do Simão ou pela simpática e trabalhadeira prometida de um dos nossos patrícios. Incomoda-me, realmente, a «Nação valente e imortal» berrada por pessoas que não sabem o que possa ser tal coisa. Mas não é só por isso que não saboreio aquele desporto chato, e que sou incapaz de vibrar com as indesejáveis vitórias alpinas da nossa selecção. Ou deixarei de ficar bastante deprimido com uma passagem aos oitavos de final. Como o amor e o ódio, o nojo pelo futebol exige de nós a melhor dose possível de irracionalidade. E é aí que está o gozo todo.
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