O Meu Homónimo Prado Coelho já disse, na edição de ontem do Público, tudo e muito mais do que eu poderia dizer sobre o último filme de Wong Kar-Wai, 2046. É um filme belíssimo e quem o deixou escapar na Festa do Cinema Francês deverá ir vê-lo quando percorrer o país (Lisboa, Porto e, com sorte, Coimbra) integrado na programação normal das salas de cinema. O que me traz aqui, na minha versão insone do costume, não é, portanto, uma tentativa de crítica de cinema, mas uma crítica dos cinemas. Cada vez há mais filmes, cada vez há mais salas de cinema, mas cada vez é mais difícil ver um filme.
Durante anos fui, contra todas os olhares desdenhosos que me chamavam bota de elástico, um fervoroso defensor da experiência do cinema no cinema em detrimento do home cinema. É certo que nunca vi, porque não tenho nem nunca me esforcei por aproveitar de quem tem, um filme num sistema de home cinema daqueles a sério, com ecrã 16:9, surround, ABS e vidros eléctricos, mas mantenho que nunca se poderá reproduzir em casa as condições de uma sala de cinema mediana. Mais, todo o ritual incluído na ida ao cinema é impossível de replicar em casa, própria ou dos amigos.
Mas com os anos a paciência esgota-se. Ir ao cinema é cada vez mais, na maioria dos casos, uma experiência de filme de terror. Tudo o que não seja um filme ignoto na sessão das 7 da tarde tem entre o público umas boas dezenas de anormais que se dedicam à árdua mas felizmente valorizada tarefa de tornar completamente impossível o visionamento do filme por parte das restantes pessoas com que fazem o favor de partilhar a sala.
Primeiro, os eternos telemóveis. Se o habitual duplo concerto para Nokia e Sony-Ericsson em Ré Menor ou o ocasional palhaço a atender uma chamada a meio do filme já são coisas pelas quais nem se dá, as estratégias que os mais criativos arranjam para utilizar o telemóvel durante as sessões de cinema “sem incomodar” são verdadeiras obras primas da inconsciência a martelo. A melhor de todas é passar o filme todo a ler e escrever mensagens ou a ver as horas no telemóvel. Como é evidente, não incomoda nada estar numa sala às escuras rodeado de ecrãs LCD azuis, cor de laranja e verdes a aparecer e a desaparecer, ou estar sentado ao lado de uma pessoa que passa a sessão a mexer freneticamente os dedos. Eu é que sou muito esquisito.
Segundo, é o falatório. Estou convencido que uma boa parte das pessoas (à volta de 99%) vai ao cinema não para ver cinema, que é coisa que desconhecem em absoluto, mas para que lhes contem histórias. Os livros, para além de mais caros, demoram que se fartam a ler, enquanto que o cinema resolve o problema com menos de 1 conto e duas horas confortavelmente sentadinho às escuras. Mas a parte melhor é que quase todos os filmes têm aqueles bocados em que não há diálogos nem voz-off -- bocados maravilhosos, estrategicamente distribuídos ao longo dos filmes e que se destinam a dar aos espectadores tempo para que estes possam comentar a parte da história que acabou de lhes ser contada. Uns, mal-educados, comentam em voz alta; outros, que adoram pensar que são bem-educados, bichanam incessantemente, por vezes num volume de som exactamente igual aos que falam de viva voz.
Terceiro, a dança das cadeiras. A malta compra o bilhete, entra na sala e senta-se nos lugares que parecem melhores. A existência, no bilhete, de uma letra correspondente à fila e de um número correspondente ao lugar, é um pormenor técnico que não interessa nem ao Menino Jesus, aliás há muito re-morto aquando da invenção do cinema. Depois, chegam as pessoas que têm nos bilhetes a indicação de lugares que já estão ocupados e que, portanto, se sentam noutros lugares e por aí adiante. Quando a sala enche, o que é raro, e há pessoas a chegar indecentemente tarde, o que é sempre, já o filme vai a meio e a parte inferior da tela continua obstruída pelas cabeças que têm que mudar de lugar devido ao caos que o desrespeito pelos lugares marcados entretanto causou.
Quando há o azar de várias ou mesmo todas estas situações se verificarem na mesma sessão, o dinheiro do bilhete foi para o lixo. Isto acontece com cada vez mais frequência, mesmo para quem, como eu, é cliente de salas onde não se pode comer (mas onde há sempre uma besta, invariavelmente sentada num raio de 3 metros, que levou o pouco ruidoso Crunch escondido no bolso do casaco).
A solução, lamento dizê-lo, passará inevitavelmente por arranjar dinheiro para comprar um bom sistema de home cinema. Sai mais caro, só se pode ver o filme quando sai em DVD ou quando se consegue sacar da net uma versão em condições mínimas de qualidade e perde-se a parte do “ir ao” cinema. Ganha-se em qualidade de vida associal.
Ah, sim, antes que me esqueça: este sistema de home cinema só pode ser desfrutado na mais deliciosa solidão. Experimentem sugerir àquelas pessoas que até desligam o telemóvel no cinema que deverão fazer o mesmo se estiverem a ver o filme em casa e depois contem-me a reacção. Pois se até se pode parar e recomeçar o filme 500 vezes sem pagar mais por isso, que diferença é que faz ter o concerto para Nokia e Sony-Ericsson na versão para orquestra de câmara? Nenhuma, claro. A única coisa que me consola é que continuo a ser poupado a saber como será a vida em 2046, porque nunca ninguém voltou de lá.
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