O nome desfigura as coisas
Em todos os quinquénios há um dia em que não tenho problemas de identidade, e esse dia foi ontem: fui buscar o meu B.I. acabadinho de renovar. O caso poderia não ser para tanto, mas o choque de me terem cobrado € 7 por um documento que me obrigam a ter independentemente de qualquer situação ou actividade tem de ser compensado de alguma forma. O B.I. é um capricho. Um capricho útil, certo, mas ainda assim um capricho, já que há vários países em que não existe nada que se lhe assemelhe, países que funcionam sem que a ausência de documentos emitidos pelo Estado com o propósito exclusivo de identificar os cidadãos provoque, aparentemente, problemas de monta.

Por que paguei eu então €7 pelo B.I.? E por que se chama bilhete, e não cartão, como todos os seus companheiros de carteira, públicos e privados? Será bilhete porque dá acesso a alguma coisa, e daí a fortuna que custa? Uma vez que é algo que temos de fazer independentemente de tudo o resto, poderá considerar-se que os € 7 são uma espécie de taxa de existência? É um bilhete porque permite a entrada no Grande Espectáculo da Cidadania Portuguesa, com direito a transmissão em directo 24 horas por dia apesar de algumas interferências?

Não correu mal. Ao fim de algum tempo, até já estava contente por terem sido só €7. O Estado, por uma pechincha, reconhecia-me, virava-se para mim, com aquele ar sisudo de que nunca prescinde, e dizia-me: “tu és tu”. E com o processo decurso na Loja do Cidadão, com aquele aspecto invulgarmente rápido e asséptico, já me via como tendo ido à Clínica da Identidade. Tens um problema de identidade? Larga €7 que o Estado te trata do assunto. Ser reconhecido por alguém com quem não se pode ir para os copos é algo que não há dinheiro que pague.

Senão feliz pelo menos contente, entrei numa livraria e dei largas ao meu vício de comprar livros a um ritmo superior àquele a que os leio. Dei uma vista de olhos e decidi-me pelos Aforismos, de Teixeira de Pascoaes (Assírio & Alvim, selecção e organização de Mário Cesariny), que era pequenino e mais barato que que a resolução dos meus problemas de identidade. Foi o mal que fiz. Logo perto do início, lá vinha a frase assassina: “O nome desfigura as coisas”.

O nome desfigura as coisas.

Raios partam o homem. Eu já devia saber que Teixeira de Pascoaes não é coisa que se deva ler num momento de felicidade-através-da-mentira, pelo menos deste tipo de mentira. Em poucos segundos, o meu B.I. voltou a ser um bocado de papel com a minha cara de acossado pela polícia e mais uma data de informações alegremente distribuídas pelo inútil ou pelo aleatório que me custou € 7. Mais € 5 pelas fotos. É por estas e por outras que um dia destes deixo de ler tudo o que não sejam manuais de instruções.
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