Sonho cor-de-rosa
Um auditório enorme de aspecto quente e televisivo, a plateia e o balcão a tentar fazer um semicírculo que não chegam a terminar estão carregados de gente. No palco, um homem alto, grisalho e de fato castanho, atrás de um pequeno púlpito, e, no extremo direito, uma mesa corrida cheia de equipamento médico atrás da qual estão sentados dois homens e uma mulher, todos de bata branca. O único som que se ouve é a voz do homem de fato castanho, que fala descontraidamente sem nunca olhar para os papéis com que, minutos antes, subiu ao palco. Subitamente, são projectadas atrás dele duas imagens enormes de fichas dentárias, uma com um A no canto superior esquerdo, outra com um B. O homem abandona o púlpito e dá alguns passos na direcção do público. Depois, vira-se para as imagens projectadas e começa a explicá-las.

Trata-se, segundo vai dizendo de forma quase casual, de duas fichas dentárias rigorosamente iguais. Acompanhando as palavras, as projecções ganham vida e radiografias de dentição rodam, giram, deslizam, sobrepõem-se. Rigorosamente iguais não: uma delas apresenta um dente a menos, mais precisamente um dos incisivos superiores, o que indica que são duas radiografias da mesma pessoa em momentos diferentes. O homem vira-se para o público, quase totalmente constituído por pessoas de meia idade bem vestidas que apresentam uma grande variedade de expressões de quase apatia e pequenas placas identificativas à lapela, relembra que o que ele vai apresentar será ali mesmo comprovado pelo Instituto de Medicina Legal e aponta para a mesa corrida com equipamento médico e dois homens e uma mulher de bata branca, completamente inexpressivos. De seguida vira-se para o público e anuncia a entrada da sua assistente.

Pelo lado esquerdo do palco, entra uma assistente muito alta e loura que enverga um vestido de noite preto tão rebuscado quanto diminuto. Empurra uma marquesa em cima da qual está um cadáver que apresenta indícios de alguma decomposição rodeado de vários blocos de Brise Floresta Nórdica. Chegada ao pé do homem de fato castanho, pára, tranca uma das rodas da marquesa com um gesto elegante do tornozelo, faz uma vénia na direcção da assistência, que não demonstra qualquer tipo de emoção colectiva ou individual, e volta a sair pelo lado esquerdo do palco. O homem de fato castanho afasta-se ligeiramente do cadáver e anuncia que, dentro de breves instantes, os técnicos do Instituto de Medicina Legal irão confirmar que a dentição A, a que tem o incisivo partido, pertence àquele corpo.

Faz dois segundos de silêncio, esboça um sorriso irónico e prossegue, repentinamente num tom de voz mais elevado, dizendo um nome masculino e pedindo ao portador desse nome que entre no palco. Imediatamente, pelo lado esquerdo do palco, entra um jovem magro, de cabelo preto e curto, que veste um vestido de noite exactamente igual ao da assistente, mas em vermelho. Tem dificuldade em andar sobre os saltos, mas consegue dirigir-se com alguma rapidez até ao homem de fato castanho. Este, sorridente, dá-lhe as boas-vindas. O jovem, atrapalhado, com alguma dificuldade em olhar directamente para a assistência e visivelmente incomodado com a presença do cadáver a apenas alguns centímetros de distância, faz um esgar.

O homem de fato castanho movimenta-se agora em passos pequenos que o transportam por um percurso mais ou menos irregular que termina sempre junto do jovem enquanto anuncia que os técnicos do Instituto de Medicina Legal irão comprovar, já de seguida, que a radiografia B, igual à A com excepção do incisivo partido, pertence àquele jovem. A assistência começa a produzir um burburinho enquanto o homem de fato castanho se desloca decididamente até ao púlpito, de onde retira as folhas com que tinha entrado. Sempre a falar, agora sobre o alcance e consequências do que está prestes a apresentar, dirige-se novamente para junto do jovem e do cadáver. Mas as palavras dele, embora amplificadas para um nível superior a qualquer outro na imensa sala, já não são ouvidas por ninguém. Na assistência, todos falam com todos, de forma cada vez mais exaltada e acompanhada por gestos bruscos. Sem perder o sorriso e com a papelada na mão direita, o homem de fato castanho levanta a mão esquerda com a palma virada para o público com o intuito de pedir calma, mas nesse preciso momento uma senhora de idade levanta-se, no meio da plateia, e grita “Matem-no!”

Automaticamente, os vários milhares de pessoas presentes no auditório levantam-se e começam a atropelar-se em direcção ao palco. Do balcão, os que não querem perder tempo a descer as escadas de acesso ao piso inferior saltam sobre a plateia. Tomado pelo pânico, o jovem começa a tentar correr, mas os saltos altos e o nervoso fazem-no cair ao chão repetidas vezes, enquanto o homem de fato castanho pede contenção e serenidade a todos quantos estão na sala. Os técnicos do Instituto de Medicina Legal permanecem imóveis, a olhar para um ponto algures do lado oposto do palco. Entretanto, algumas dezenas de elementos da assistência que conseguiram não ser esmagados, chegam ao palco e lançam-se sobre o jovem, que tenta cobrir o rosto num gesto reflexo. A última coisa que sente é uma pancada que lhe parte um dente incisivo superior.
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