Cartão vermelho
O movimento que aparentemente começou a ser lançado para que a sociedade civil se mobilize no sentido de exigir um mínimo de moralidade na administração da coisa pública e do combate à corrupção, corre o risco de ser morto à nascença pela fraca propensão que os portugueses e as portuguesas têm para a participação cívica. De nada servirão os apelos (coordenados?) de Maria José Morgado e Mário Soares enquanto as pessoas se recusarem a participar em mais que a agremiação pseudo-desportiva do bairro, e mesmo isso por inércia ou por terem a cerveja mais barata no pardieiro infecto que lhe serve de sede. A desculpa é sempre a mesma -- falta de tempo -- e razão também -- querem cá saber disso.

Se quanto a cá querem saber disso AGRAFO PONTO NET nada pode fazer, até porque não tem tempo, já quanto à desculpa esfarrapada da falta de tempo a situação não é a mesma. Temos esperança de que, destruindo a sua esfarrapada justificação mecânica, os portugueses e as portuguesas caiam em si (embora se esteja mesmo a ver que, com a destruição dessa justificação mecânica, os portugueses e as portuguesas irão simplesmente arranjar outra que seja mais difícil de desmontar) e passem a preocupar-se mais com aquelas coisas que não, não nos são nada distantes, por mais confortável que seja pensarmos que o são.

Assim, apresentamos-lhes hoje o exemplo de alguém perfeitamente normal, vulgar, médio, com os mesmos problemas, anseios e alegrias que qualquer outro ou outra de nós e que consegue gerir o seu tempo eficazmente, por forma a ter uma participação activa na nossa sociedade: a Dona Beneplácita. Vamos então seguir um Sábado da Dona Beneplácita, precisamente o dia da semana em que a sua associação cívica se reúne, para vermos como ela consegue conjugar essa reunião de 2 ou 3 horas ao fim da tarde com todos os afazeres de uma mulher que tem de conjugar a carreira com a família.

A Dona Beneplácita trabalha na secretaria do Centro de Saúde da sua área de residência. Naturalmente, o horário de trabalho é de segunda a sexta das 9 às 17.30, mas um esquema montado entre os vários colegas do serviço permite que uns passem os cartões de ponto uns pelos outros, abreviando assim em cerca de uma hora por dia o tempo efectivo de serviço. Mas, tal como todas as outras pessoas, há sempre imprevistos e neste Sábado a Dona Beneplácita terá de arranjar tempo, antes da ida ao hipermercado, para passar pela secretaria do Centro de Saúde. É que a vizinha do lado precisa de uma consulta para pedir um atestado médico por uma razão aleatória, e precisa dessa consulta na segunda de manhã bem cedo, porque a seguir tem hora no cabeleireiro. Como não se lembrou disto a tempo e horas, já não conseguiu a consulta senão para o princípio da tarde e veio pedir à Dona Beneplácita o favor de a passar à frente dos outros. Ela não gosta nada destas coisas, mas a boa relação entre vizinhos está acima de uma pequena areia na consciência, especialmente quando essa vizinha é a professora de quem poderá depender, para o ano que vem, a inclusão do filho da Dona Beneplácita na turma que a escola reserva para os filhos dos professores e seus amigos ou numa das outras turmas cheias daquela escumalha a quem não faz grande diferença chumbar.

Mais tarde, já regressada do hipermercado, onde não se esqueceu de pedir uma factura em nome da firma do marido para ele poder deduzir nos impostos, vai ter de ir falar com o primo que trabalha na polícia para este tirar a multa de estacionamento que lhe passaram na quinta-feira passada. É quase todas as semanas a mesma coisa: não há estacionamento legal senão a mais de 200 metros da ervanária onde a Dona Beneplácita se abastece semanalmente, não lhe restanto outra possibilidade para além da de ser multada. É atroz, a falta de sensibilidade das autoridades neste país, e quem não conheça alguém lá dentro é Friskies neste mundo cão.

Quem pensa que o dia da Dona Beneplácita se resume a isto, engana-se redondamente. O marido da Dona Beneplácita, como já se está mesmo a ver, não faz a ponta dum corno em casa e tem que ser ela a fazer tudo, desde as limpezas às refeições, especialmente desde o marido começou a ficar deprimido por causa da firma. Os negócios não vão bem e o braço direito dele, um funcionário que lá trabalhava há já 7 anos a recibo verde, despediu-se, o que só veio piorar a situação.

Mas a Dona Beneplácita ainda consegue fazer o almoço, aspirar a casa e só chegar ligeiramente atrasada com o filho à consulta no dentista. O puto, que felizmente não tem mais nenhum problema de saúde, está sempre no dentista. Uma ocupação a somar a todas as outras e, principalmente, uma despesa que só consegue ser suportada porque o Sr. Dr. tem a bondade de fazer as consultas mais baratas a troco de não passar recibo. Se não fosse isso, a Dona Beneplácita não sabe como seria. Teria de prescindir de algumas coisas, talvez até mesmo da TV Cabo. A TV Cabo! A Dona Beneplácita tinha-se esquecido da TV Cabo, cujo cartão falsificado do descodificador deixou de funcionar. Era só o que faltava: ainda vai ter de arranjar tempo para passar pelo biscateiro electrónico da sua área de residência para ver se lhe resolvem o problema.

Com todas estas voltas, a Dona Beneplácita só consegue estender as pernas por uma meia horita antes de ir para a reunião da sua associação cívica. Mas ela nunca falta e lá estará a tempo e horas. Ela não desiste. Ela quer um país mais moderno e mais justo. Ela quer um país onde os políticos sejam pessoas sérias e não somente esta corja imunda que vai para lá abotoar-se com o que é nosso. Ela deveria ser o nosso exemplo. O vosso exemplo. Tenham vergonha na cara.
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