Não era sobre nada disto que eu ia escrever. Já nem me lembro bem sobre o que era, mas não era sobre nada disto. Mas caí na asneira de aproveitar um bocadinho de descanso para ler a entrevista de Álvaro Barreto.
Foi uma espécie de problema de consciência. Eu até já fui um rapaz que se interessava por estas coisa ou, pelo menos, tentava estar minimamente a par. Não que me visse naquilo ou que percebesse muito bem o que se estava a passar, mas sentia-me bem por estar informado e compreendia mal afirmações do género “não me interesso por política”. Era uma espécie de dever de cidadania, uma pessoa “interessar-se” por “política”. Ler o jornal, saber o que os gajos dizem, mandar uns bitaites e ter uma discussão ocasional sempre me pareceram comportamentos constitutivos de uma atitude saudável. Além do mais, há aquela coisa maravilhosa na “política” que é a capacidade para unir as pessoas independentemente das suas convicções futebolísticas.
Hoje já não sou assim. Boa parte do tempo auto-deportado para a Ciberia, de onde vos escrevo com esta irregularidade conhecida, é com uma lágrima de amargura (esta era mentira) que tenho de admitir que me estou profundamente nas tintas. Não me estou nas tintas para o geral, (ainda) não sou dos que dizem que aquilo é tudo a mesma merda, mas estar a par provoca-me uma certa descompensação e não tenho ansiolíticos para voltar a pôr tudo no sítio.
Achei que devia tentar. Para mais, era quase de graça, uma vez que não comprei o Corto Maltese por mais €4,90. Eu já devia saber que tudo o que não vem pelo preço do Público mais qualquer coisa não presta, mas caramba, não se pode aproveitar só os livros à quarta, os DVD à quinta, as reproduções de quadros à sexta, o Corto Maltese à segunda, os 750 gramas de polvo limpo à terça e usar o jornal só como embrulho. Sim, também serve para fazer as palavras cruzadas (já me chegam sempre feitas) e para outro passatempo ainda mais giro que é a caça à gralha, que só peca por ser demasiado fácil.
Então lá abri aquilo decidido a ver o que é que o homem tinha para dizer. Passados alguns minutos, não me restava senão concluir que o homem não tinha nada para dizer. Pergunto-me o que o terá levado a dar a entrevista. Terá sido obrigado a isso pelo agente artístico? Ainda por cima, a entrevista é uma parceira entre o Público, a RR e a Dois dois pontos. Será a nova estratégia do governo para calar a comunicação social encher os media de entrevistas para que não haja espaço para as notícias e comentários inconvenientes?
Bem, mas quem não leu a entrevista fica a saber que o Eng. Álvaro Barreto considera que “Hoje a comunicação social tem uma intervenção muito maior que há dez anos, e especialmente tem uma intervenção mediática”. De ser mentiroso ninguém o pode acusar. E como mesmo perante isto os jornalistas não se tocaram e continuaram a fazer perguntas, lá veio mais outra: acerca da utilização de medidas extraordinárias para cumprir a meta de 3% de défice orçamental, o Ministro dos Assuntos Económicos diz: “Admito que a solução não se possa eternizar”. Admite. Nalguma coisa havíamos de estar de acordo. Nisso e em não ter nada para dizer.
Agora desculpem lá, mas vou para cama que isto já não são horas e amanhã tenho mais que fazer. Admito... Sinceramente.
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