Foi hoje que pude, finalmente, entrar numa sala de audiências de um tribunal. Um tribunal a sério, daqueles que o Estado tem a bondade de manter em funcionamento. Não era nada de complicado, sou apenas testemunha abonatória num daqueles processos patetas que entopem o sistema judicial português que, desta vez, e após duas tentativas falhadas há um ano atrás, ia ser ouvida.
Tudo decorreu com a maior informalidade, acrescentada por ter sido colega de escola do oficial de justiça e por conhecer várias outras testemunhas presentes. Após uma primeira chamada, foi tudo conduzido para a sala de espera, um espaço deprimente equipado com meia dúzia de cadeiras estofadas a napa e uma mesa cuja fôrmica castanha denunciava claramente uma tentativa muito pouco esforçada de imitar madeira. Tudo conversa, tudo ri, tudo comenta a perfeita absurdidade do processo, tudo diz que nem sabe o que tem para dizer acerca do assunto. A coisa boa é que este processo ainda só se arrasta há 3 anos, um grão de areia na praia judicial à luz das experiências de quem as tinha para contar.
E lá foram entrando as testemunhas que, muito ou pouco, tinham alguma coisa de concreto a dizer por terem tido, de alguma forma indirecta, uma relação pessoal com os acontecimentos em causa. A maior parte delas, à medida que ia saindo dirigia-se à sala de espera para comunicar aos que ainda aguardavam em que tinha consistido o falatório dentro da sala de audiências. Será esta possibilidade normal? Deve ser, num tribunal que, entretanto, estava já sem protecção policial e com a porta da sala de audiências escancarada para quem ali aparecesse e quisesse ver as vistas. Impediu-me de ver os outros testemunhar antes mim um pudor atávico, mas só isso.
Finalmente, lá chegou a minha vez, ditada não sei por que ordem. O tal oficial de justiça meu conhecido veio chamar-me ao corredor escuro e frio onde eu vagueava com o destino permitido pelas restrições de entrada exclusiva a funcionários e magistrados, dirigi-me à sala de audiências e entrei. Foi-me apontada uma cadeira virada para o juiz, com um microfone suportado num pé articulado que o deixava numa posição ameaçadora, irrepreensivelmente paralelo ao chão e apontado como uma arma à cabeça do ocupante da cadeira. Pensei que, se mentisse, um sistema automático dispararia o microfone abrindo-me um buraco na cara.
Mas eis que, no momento em que me preparava para me sentar, tentando descobrir uma forma de o fazer sem derrubar o microfone-míssil, o advogado de defesa comunica rapidamente ao juiz que prescinde de mais testemunhas. O juiz, automatizado por anos e anos de seca, não precisou de um segundo para me dizer, sem sequer olhar para mim: ”Está dispensado. Se quiser ir à sua vida, pode ir”.
Se quiser ir à minha vida posso ir? Assim? Devo agradecer? Mas quem é que lhe disse que eu tinha uma vida a que ir, queira ou não queira ir-me a ela? E é assim que se prescinde de uma testemunha? E os sentimentos das pessoas? E quer isto dizer que ainda não é desta que consigo ser uma testemunha a sério? E como posso consegui-lo? Tornando-me testemunha de Jeová?
Soltei um “bom dia” que se perdeu na indiferença da sala quase vazia e fui à tal minha vida, agora com bênção judicial. A mesa de fôrmica castanha também, provavelmente, se bem que para essa é tudo muito mais prático: só tem de ficar ali.
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