Um milhão de portugueses
O Público, que ao Domingo não traz livros por mais 4,90, nem DVD por mais 8,90, nem reproduções de quadros por mais 9,90, nem 750 gramas de polvo limpo por mais 7,90, tem mais faits divers que o costume, pelo mesmo preço e igual número de gralhas e pontapés na gramática. Mas entre os faits divers todos, houve um que me chamou a atenção, com o seu indicador recurvo, sussurro cavernoso e uma verruga na ponta do nariz, como é costume dos faits divers que servem para excitar os preconceitos primários do leitor que, todo contente, fica subitamente com tema de conversa de café para mais 10 minutos.

Na página 42, secção “Pessoas e Jogos” (!), somos informados acerca do novíssimo e original projecto da duquesa de Northumberland, “um dos condados mais selvagens de Inglaterra”. E em que consiste esse projecto, aliás já em execução? Consiste num jardim, “muito particular”, onde estão cultivadas diversas drogas naturais como o “cânhamo indiano e várias plantas alucinogénicas”, às quais se juntarão em breve “tabaco e folhas de cocaína”. O objectivo é fazer um “museu de drogas ao natural”, que só poderá ser visitado na presença de um guarda e que irá “permitir que se fale do abuso de drogas”, já que “as drogas são uma grave preocupação social e provocam fortes emoções”, o que, dito desta maneira, fica um pouco estranho e dúbio, mas como vai com as aspas espero que se perceba que não tenho nada que ver com isso.

E uvas? Sim, uvas. E por que não só permitir a visita a lagares de vinho e a destilarias na presença de um guarda? Desconheço a realidade inglesa nesse aspecto, mas presumo que não seja melhor que a nossa, independentemente de estarmos a falar dos condados mais ou menos “selvagens”, mas vociferarei até que a voz me doa contra esta histeria beatífica e hipócrita que rodeia a questão das “drogas”, certo de que os meus protestos serão, um dia, olimpicamente ignorados.

Fumar cigarros à frente das crianças? Criminoso, pois está provado que tamanha irresponsabilidade propiciará o consumo do tabaco quando elas tiverem capacidade de iniciativa para o fazer. Fumar charros e similares ou injectar-se à frente das crianças dará direito (e bem) a algo aparentado com um linchamento público. Mas alguém se lembra de não beber à frente das crianças? Eu não, e não conheço ninguém que sim. Mas por que se há-de ter tão inusitado cuidado? Há livros de BD destinados à promoção da cultura do bom vinho cuja publicação é patrocinada por entidades públicas ou semi-públicas e temos a classe médica a mentir às pessoas, dizendo-lhes a frase “O vinho faz bem, consumido com moderação”, filha subtilmente ilegítima de um estribilho de outros tempos que hoje já só é proferido com um sorriso irónico nos lábios.

A classe médica a mentir é um exagero. Há os casos, que não são tão poucos como isso, de médicos que se atrevem a dizer que não é nada verdade que o vinho, mesmo consumido com moderação, faça bem à saúde. E não estão a dizer nada que qualquer pessoa com um mínimo de cultura geral e um cérebro funcional não “saiba” à partida, embora regra geral se escuse a “perceber”. Afirmar que fazer percorrer o tubo digestivo por um produto abrasivo que depois será absorvido pela corrente sanguínea, que o transportará ao longo de um extenso massacre de células nervosas, faz bem porque tem um efeito marginal e desejavelmente substituível na digestão e no desentupimento das veias é a mesma coisa que dizer que levar lambadas na cara faz bem porque activa a circulação -- quem dará a outra face? O caso é que os médicos que aproveitam uma aparição nos media para dizer que o vinho não faz bem, já não aparecem uma segunda vez. Vá-se lá saber porquê.

E assim continuamos a abanar a cabeça de escândalo perante uns milhares de drogados que, aparentemente, minam o progresso das nações ocidentais, enquanto os 10% de alcoólicos crónicos que constituem a nossa população continuam a matar e desfazer vidas na estrada e no recato do lar perante uma indiferença que, não vale a pena estar com paninhos quentes, é total. Longe de mim defender que se deve deixar de combater “a droga” (por mais que só a histeria colectiva perante as drogas estranhas impeça, neste momento, que esse combate tenha alguma espécie de eficácia) ou que se deve proibir o consumo das drogas autóctones (por mais que fosse de alguma decência parar de promover descaradamente o seu consumo junto de crianças que ainda nem ler sabem). Será um exagero querer que se ataque uma droga quando ela é um dos sustentos do país e uma das suas mais fortes marcas culturais, especialmente quando essa droga é bebida na igreja por quem manda no pedaço a nível global. Gostaria era que não fosse demais pedir alguma racionalidade, uma atitude construtiva, que as autoridades em geral e a classe médica em particular que não tentassem justificar o seu consumo de drogas legais com o argumento idiota de que faz bem à saúde e que acabasse este tentar esconder os nossos podres demonizando os podres dos outros, o que resulta invariavelmente na não resolução de podres nenhuns -- há dias em que acordo especialmente naïf. Mas é assim a beleza de se ser humano. Tchim tchim.
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