Via verde
A possibilidade que está prestes a ser dada aos portugueses de irem ao Centro de Saúde da sua área de residência mostrar a declaração de IRS para, depois, a conta dos cuidados de saúde ser calculada em função dos seus rendimentos abre uma janela de oportunidade. Mais uma vez, Portugal poderá ser inovador e abrir novos mundos ao mundo. Esta ida ao Centro de Saúde poderá ser rentabilizada se fizermos nascer a velha ideia, à espera de parto há demasiado tempo, de que a velocidade limite nas auto-estradas deveria ser diferenciada em função do veículo. Mais uma vez colocamos a questão tantas vezes repetida do debate na televisão à conversa de café: sabendo-se que é mais seguro um bom carro a 200 Km/h que um chaço a 120, será justo que o limite seja igual para toda a gente?

Tal como você, AGRAFO PONTO NET também acha que não e decidiu lançar uma campanha que fará de Portugal o primeiro país do mundo com limites de velocidade diferenciados -- não só em função do veículo, mas também do estado de saúde do condutor, dos anos de encartado, das condições meteorológicas e quaisquer outros factores relevantes para o caso. Quando esta nossa ideia, que sabemos partilhada por milhões de jovens a quem os pais deram uma bomba pelos 18 anos, for posta em prática, os cidadãos e cidadãs passarão a aproveitar a ida ao Centro de Saúde com efeitos parafiscais para, também, declararem que viatura conduzem e submeterem-se a um pequeno check-up. Do cruzamento das informações com outras, como o estado do tempo no momento de cada entrada na auto-estrada, sairá então o limite de velocidade a que cada um dos binómios condutor/veículo está obrigado e, já agora, quanto é que pagará nas portagens. Obviamente, esta medida obrigará a que todos sejam possuidores do sistema Via Verde, única forma de controlar tanta coisa em tempo real.

Para que todos percebam como funcionará o sistema, AGRAFO PONTO NET tem para lhes apresentar já de seguida uma simulação, para a qual contamos com a colaboração voluntária e graciosa de dois condutores que, como gente que vive o seu tempo, são capazes de se sujeitar a qualquer coisa para aparecerem, nem que seja num recôndito sítio na internet.

Temos então connosco o Sr. Arsénio Litro, 65 anos, carta há 42, salário mínimo; 11 dioptrias no olho direito, 9 no esquerdo, princípio de doença de Parkinson, taxa de alcoolemia permanente de pelo menos 0,3, mesmo sem ter bebido nada. O Sr. Arsénio conduz um Simca 180 de 1964 que já não terá qualquer possibilidade de passar nas inspecções daqui a 5 meses com um esqueleto de plástico pendurado junto ao vidro traseiro. Para este caso, as condições atmosféricas são chuva forte, vento com rajadas até 90 Km/h, possibilidade de granizo e uma nuvem tóxica.

Ao seu lado, está o Sr. Martim Hantunnes, 20 anos, carta há 2, mas conduz desde os 7 nas propriedades da família, que não apresenta rendimentos porque a única pessoa a ganhar para a casa é o pai que trafica droga e emigrantes a coberto de uma empresa fantasma de limpezas industriais, rendimentos que adorava declarar, mas não pode senão vai dentro -- é assim a justiça em Portugal! Uma saúde de ferro, mete-se nos esteróides anabolizantes à força toda, toma vários litros de bebidas isotónicas e iogurtes com pedaços por dia, só não foi para piloto-aviador da Força Aérea porque isso implicaria nunca mais mandar uns riscos com os amigos. O Sr. Hantunnes está a estrear um Mercedes 500 SLK kitado com 600 cavalos, 16 airbags, controlo de tracção, EPS, ABS, ADN, WMD, THC, HTTP, Ultra Retinol-A, Omega 3 Aloé Vera e um autocolante no pára-choques traseiro que diz “O meu outro carro é um papa-reformas”. Para este caso, as condições atmosféricas são: sol alto, temperatura amena e uma suave brisa perfumada com alfazema e alecrim.

Os dois preencherão agora as papeladas, submeter-se-ão ao check-up e, depois de um breve intervalo publicitário em que vários jogadores da selecção nacional de futebol promoverão o consumo de bebidas alcoólicas, de fast food de elevado valor calórico, de combustíveis fósseis e de produtos financeiros destinados a aumentar o endividamento das famílias, voltaremos para ver os resultados. Entretanto, lembre-se: não fume, pela sua saúde.

Ora então cá estamos de volta para saber, afinal, como vai ser a vida ao volante destes dois nossos colaboradores ocasionais. Ora aqui temos os resultados do Sr. Arsénio Litro: infelizmente para ele e para os donos da funerária de que o primo é sócio, o Sr. Arsénio Litro não poderá conduzir na auto-estrada, nem mesmo em contramão. Teria de utilizar apenas as outras estradas para ir a todo o lado, e dizemos teria porque o coração do Sr. Arsénio, que já não estava grande coisa, não aguentou esta horrível notícia e foi-se. Não percam, mais tarde, as imagens chocantes da sua morte comentadas passo a passo por um especialista que havemos de desencantar até à hora do Telejornal. Em compensação, o Sr. Hantunnes poderá circular à velocidade que bem entender, desde que subsónica para não partir os vidros das casas à beira da auto-estrada. Por razões óbvias, nenhum deles paga portagem.

E pronto, como vêem é fácil, prático e verdadeiramente inovador. Por hoje é tudo, obrigado.
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