Começou por ser apenas um pormenor humorístico num dia bastante preenchido. A minha chegada triunfal àquele aposento maravilhoso foi imediatamente ensombrada por um papelinho cuidadosamente deixado em cima da mesa que anunciava ser aquele um quarto para não fumadores. “Deus dá com uma mão e tira com a outra”, pensei eu. Se por um lado o meu nível era finalmente reconhecido e eu estava alojado num hotel de quatro estrelas, por outro impunham-me, de chofre, uma limitação inaceitável num quarto cuja gigantesca janela de vidro fumado não abria mais que uma nesga, provavelmente para impedir que algum cliente mais desesperado com tanto conforto tentasse suicidar-se.
Deixei a mala sentada perto da porta e dirigi-me através do calor automático das entranhas do hotel até à recepção, onde o recepcionista, ladeado pelo sorridente paquete a quem eu, minutos antes, tinha frustrado as possibilidades de gorjeta ao levar a minha bagagem para o quarto, me encarou com aquele ar estudado mas (sim, mas) eficaz que seria de esperar. Perguntei-lhe se não seria possível mudarem-me para um quarto onde pudesse fumar. Ele respondeu-me que não tinham mais nenhum quarto com aquela cama (enorme) disponível, mas que a única diferença entre os quartos para fumadores e não fumadores era a presença de um cinzeiro, pelo que o funcionário (o tal paquete) iria imediatamente equipar o meu quarto com os adereços indispensáveis à correcta e asseada prática do meu vício. Mas ainda o recepcionista não tinha acabado de o dizer e já o paquete, sempre sorridente, vinha do compartimento atrás da recepção, para onde se tinha esgueirado segundos antes, com um cinzeiro barato de vidro que me estendeu com um gesto delicado da cabeça e um sorriso ainda mais rasgado. Eu agradeci, meio engasgado pela vontade de rir, e voltei para o quarto.
Acontece que tinha sido essa a noite escolhida pelo meu tortuoso e temperamental destino para ir ver The Motorcycle Diaries, aquele filme a que a habitual subtileza da tradução à portuguesa transformou em Diários de Che Guevara. É um filme belo, estranho e de classificação difícil: é político, incontornavelmente político, mas porque é uma espécie de prequel da vida pública de uma das figuras politicamente mais marcantes do século XX apresentada sob a forma de um road movie de bom gosto. O mais fascinante é como o realizador conseguiu nunca forçar demasiado a nota, erro que teria sido fácil e lucrativo de cometer algumas dezenas de vezes ao longo do filme.
Mas o mais relevante é a forma como o filme “mostra” (ou romanceia) um período fundamental ou mesmo propiciador da actividade revolucionária que haveria de terminar com a beatificação de Ernesto Guevara, um período até então excepcional na sua vida que transformou a sua visão da América do Sul e, consequentemente, do mundo. De volta para o hotel, atravessando o frio automático das ruas de Coimbra, não me pude impedir de pensar até que ponto a provação, certamente excepcional, de ser alojado num hotel de 4 estrelas não seria constitutiva de uma nova forma de eu encarar a vida; ou de imaginar o papel anónimo e já hoje sem as feições definidas para além do sorriso que o paquete terá na ideia que faço da minha terra, da minha gente. Pensei mesmo se não seria de escrever um diário dos dias e das noites que se seguiriam, não fosse dar-se o caso de alguém, um dia mais tarde, querer fazer um filme. Mas os plings do elevador, o cansaço, a falta de tempo e as inesgotáveis possibilidades de mobilidade horizontal proporcionadas por aquela cama tiraram-me daí a ideia. Fica para a próxima.
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