O saber não ocupa lugar
Sejamos claros: nada me move contra os alfabetos, antes pelo contrário. Considero mesmo que o design de alfabetos tipográficos é, na sua discrição, uma das mais nobres vertentes daquela disciplina, infelizmente enxovalhada diariamente por milhões de utilizadores de ferramentas de processamento de texto espalhados pelo mundo inteiro, felizes na sua sempre menosprezada ignorância (vide os «cartazes» em Algerian, os textos em Comic Sans MS, as teses em Times New Roman). Mas há algo que me preocupa e que por vezes não me deixa dormir: por que é que tanta gente insiste em fazer alfabetos em ponto cruz? Não há feira de artesanato que não tenha uma ou duas bancas («stands»...) de ponto cruz invariavelmente repletas de alfabetos. Porquê, meu Deus, porquê? Números, por exemplo, é muito mais raro.

Uma explicação que me vem à cabeça é a de que, sendo o ponto cruz das primeiras coisas que se ensina as crianças a fazer com agulha e linha, se aproveite esta actividade para estimular a adesão dos espíritos jovens ao mundo letrado. Mas a esta suposição temos de acrescentar o facto de que quem permanece ligado à realidade do ponto cruz continua a fazer alfabetos ad nauseam, e isto coloca uma questão: ou a razão dos alfabetos em ponto cruz nada tem que ver com uma inusitada preocupação com os níveis de literacia ou essa preocupação não dá grandes resultados quando canalizada através do ponto cruz. Ou as duas. Sim, porque se desse resultado, as pessoas a dado ponto passariam do alfabeto para a sua utilização mais ou menos criativa, quer ao nível do design, quer daquela coisa interessantíssima que consiste em juntar várias letras para formar palavras e por aí adiante. Mas nada disto se passa: os alfabetos são sempre iguais e são sempre alfabetos e nada mais, podendo, em casos extremos de genialidade, dar lugar a quadros com nomes de pessoas.

E é assim que apelo a toda a comunidade cibernauta lusófona para que me esclareça esta dúvida torturante: qual é a razão de ser dos alfabetos em ponto cruz? Outras grandes dúvidas há acerca da realidade envolvente, como a razão por que o ponto cruz é sempre bordado em tela branca e com linha azul bebé ou cor-de-rosa, ou a razão por que ainda há quem venda (e, portanto, quem compre) um produto que, se não estou enganado, já existe em quantidade mais que suficiente para abastecer a humanidade durante os próximos séculos (mesmo partindo do princípio que a humanidade terá, como tem tido até hoje, uma necessidade tão grande de alfabetos em ponto cruz). Mas para estas dúvidas menores estou-me um bocado nas tintas, eu queria era que me esclarecessem acerca da principal, da fundamental, daquele «Porquê» primordial que me atormenta. Se pelo caminho me souberem responder ao resto, óptimo, o saber não ocupa lugar, mas não precisam de se preocupar demasiado.
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