Pôr lá as patas ou não pôr lá as patas, eis a primeira questão
Andávamos todos tristes e cabisbaixos, as dívidas do SNS às farmácias aumentavam a olhos vistos à conta dos antidepressivos, o país estava finalmente a transformar-se no pântano da profecia. A razão? Falta de novidades. Nas sociedades ocidentais e em Portugal já não conseguimos viver sem uma dose regular de novidades para comprar, ouvir, ver, cheirar, tocar, saborear e por aí adiante. Nada dura mais que umas semanas, na melhor das hipóteses, e a ausência prolongada de substitutos lança-nos a todos naquela tristeza profunda de quem sente que já não há futuro digno desse nome.

Mas o destino tem estes hábitos poucos temperados e se há uma semana atrás não se passava nada, hoje passa-se tudo: vamos ter eleições e temos mais uma bronca no futebol (“corrupção no fenómeno desportivo”, como se diz naquela doença eufemística em que o pretensiosismo jurídico e o analfabetismo jornalístico estão a transformar a outrora resplandecente Língua Portuguesa). Isso do futebol não interessa para nada, é só mais uma vez o Pinto da Costa e os árbitros e mais uma data de investigações e assim que não podem, de forma alguma, dar resultados, não vão uns milhares de doentes da bola sublevar-se, atiçados por aquelas pessoas que fazem vida de excitar as massas com regionalismos com hora marcada e a que vulgarmente se chama “autarcas da área metropolitana do Porto”). Mas haver eleições, isso é outra conversa.

Dizia há dias o JMD Barroso, Presidente da Comichão Europeia, que gosta muito de parlamentos. Pois eu não só gosto muito de parlamentos como gosto ainda mais de eleições, sejam elas quais forem. Até de referendos, que não sendo propriamente eleições têm toda aquela mobilização de imensas massas de eleitores. Mas as minhas preferidas são as eleições legislativas. Os círculos, o método de Hondt, os cabeças de lista, as contas para ver que maiorias se podem formar, as tournées de comícios, as declarações dos populares (não necessariamente do Partido Popular), tudo aquilo é giríssimo. As eleições legislativas são as mais complexas e completas de todas as eleições, até porque é do que nelas se elege que é emanado o Governo. É assim tipo reacção em cadeia: nós elegemos os deputados, que por sua vez elegem o Governo, o Presidente da Assembleia da República e toda uma corte de representantes e organismos oficiais, desde altas autoridades até conselhos consultivos, vinculativos, vomitivos e outros. É mesmo engraçado. Tipo Mega Ciência, mas para muito melhor.

E desta vez até temos bónus: dois dos partidos com assento parlamentar apresentam-se com líderes novos. E o que a gente quer é novidades! No PS, temos o Sócrates, que já é uma novidade com alguns meses, mas como ainda não disse nada que se aproveitasse conta como se fosse novinho em folha. Além do mais, aparece sempre um primor de bem-posto, claramente apontado para o eleitorado feminino (com menos uns aninhos e também seria para o masculino, mas não se pode ter tudo) e com um discurso vácuo mas de palavras sempre muito bem escolhidas. Parece-me que o grande trunfo de Sócrates serão os amores platónicos o que, não sendo novo, é sempre divertido. E também temos novo robô no PC, este sim cooptado de fresco numa linda cerimónia decorrida o fim-de-semana passado na cintura industrial de Lisboa (onde mais?). Este novo robô, embora não diga nada de novo, já não reproduz cassetes, mas sim cartões de memória Secure Digital, o que permite uma reprodução muito mais fiel e sem perdas dos conteúdos seleccionados pelo utilizador/dono. Aliás, não sei se já repararam, mas pela primeira vez em 12 anos o PCP tem um secretário-geral de cujo discurso se perceberam as palavras todas. E, isso sim, é uma grande novidade.

Com as novas aquisições e o calibre dos que já cá estavam -- a demagogia light e politicamente correcta de Louçã, a descoordenação patológica de Santana e o charme assanhado de Portas -- vamos ter um campeonato, perdão, uma campanha eleitoral que irá seguramente mais baixo que nenhuma outra até agora em Portugal. Ena ena. Será desta que eu ganho coragem para nem lá pôr as patas? Quem sabe.
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