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Sic transit gloria mundi
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Depois de uma fase inicial do jogo em que o Sri Lanka parecia bem encaminhado para uma vitória apertada sobre a Índia, eis que a Indonésia faz valer os seus trunfos (inclusive aquele, por muitos considerado ilegítimo, de ter tido mortos não só do maremoto mas também do terramoto) e se posiciona como vencedora indiscutível do Grande Body Count Noticioso de 2004 que tem preenchido o prime time a milhões de entusiastas de catástrofes em todo o mundo. Mas infelizmente para este simpático país asiático, quem no futuro fizer um estudo sobre os acontecimentos mais marcantes de 2004, não encontrará qualquer referência a esta carnificina nos vários balanços anuais realizados pela imprensa. A razão é simples: como fazer esses balanços após o ano ter terminado já sabe a extemporâneo porque outros órgãos de comunicação social houve que os fizeram antes do tempo, toca tudo a balançar com uma ou duas semanas do ano velho ainda por decorrer. É tudo uma questão de concorrência que, como de costume, exige alguma adaptação da nossa parte: se quisermos ficar para a posteridade, o melhor é morrermos antes do Natal ou então deixarmos isso para depois da passagem de ano. |
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Tragédia nos céus
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Segundo fontes bem informadas, a noite passada terá sido ocasião para uma tragédia que, tendo passado despercebida a uma humanidade entretida com o body count da Baía de Bengala, poderá trazer consequências imprevisíveis daqui a cerca de um ano: o Pai Natal não regressou à sua base ultra-secreta no Pólo Norte, depois da sua habitual ronda mundial de distribuição de presentes. De acordo com as informações recolhidas pelos serviços secretos finlandeses (que são quem trata destas coisas), há já várias horas que o Pai Natal não dá notícias e as únicas pistas encontradas até a momento foram alguns bocados de rena recolhidos no mar junto à costa da Ilha da Páscoa. Uma análise preliminar dessas carcaças confirmou que se tratavam, efectivamente, de algumas das renas que habitualmente puxavam o trenó do Pai Natal.
“O primeiro relatório enviado pelo nosso emissário especial à Ilha da Páscoa indica que as marcas nos cadáveres das renas encontradas a boiar no Oceano Pacífico apontam para que tenham sido comidas, primeiro figurativa e depois literalmente, pelo Lobisomem, que deixou apenas os ossos, as cartilagens e as partes mais gordas, provavelmente por causa do colesterol”, adiantou a AGRAFO PONTO NET uma fonte anónima dos serviços secretos finlandeses, que referiu ainda tratar-se este macabro achado de uma pequena percentagem do total de renas que puxa o trenó, desconhecendo-se até agora o que terá acontecido às restantes.
A história de incidentes envolvendo o Pai Natal, de seu nome completo Pai Vanderlei Holstein de Athayde Natal, está recheada de peripécias e acontecimentos rocambolescos, principalmente desde a invenção do avião. O último incidente grave deu-se em 2000, quando o trenó foi atacado por caças da Força Aérea Americana quando passava sobre a Jugoslávia. O ataque, que provocou a morte de algumas renas e a destruição das prendas que iriam ser distribuídas na África Sub-saariana e em alguns códigos postais da América Latina, levou à implementação de cuidadosos planos de distribuição que, desde então, têm prejudicado bastante a entrega atempada das prendas em zonas de conflito. Depois do 11 de Setembro de 2001, o medo de ataques terroristas impôs sérias limitações à actuação do Pai Natal, que tem de se apresentar com algumas horas de antecedência na CIA para passar com toda a sua carga por uma máquina de raios X. No entanto, desta vez há uma real preocupação, já que é a primeira vez que o Pai Natal está tanto tempo sem contactar a base.
De acordo com o que conseguimos apurar, sempre que ocorre uma Lua Cheia nas proximidades de 24 para 25 de Dezembro, são tomadas medidas de precaução especial em torno da segurança do Pai Natal que passam, essencialmente, por muni-lo de uma pistola com balas de prata e forrar as hastes das renas com folha do mesmo metal, único material conhecido capaz de ferir ou mesmo matar o Lobisomem. No entanto, e uma vez que a Lua Cheia seria 2 noites depois da data convencionada para o nascimento de Cristo, ter-se-á optado pela não activação de dispositivos especiais de segurança. O problema, a confirmarem-se as informações disponíveis até ao momento, terá surgido quando o Pai Natal resolveu permanecer mais alguns dias no hemisfério Sul com o pretexto de que um bocadinho de sol lhe faria bem à artrite.
Conscientes dos riscos que esta decisão poderia representar, os serviços secretos finlandeses terão pedido ao Pai Natal que lhes fornecesse a sua localização exacta para que pudessem ser tomadas algumas medidas, mas ele terá recusado a oferta argumentando que não queria ser importunado. Segundo um elemento do serviço de apoio ao cliente do Pai Natal, presentemente a trabalhar a recibos verdes no sector de trocas e devoluções, “ele sempre disse que isso do Lobisomem era uma fantochada e que em séculos de várias coincidências entre o Natal e a Lua Cheia nunca se tinha passado nada. Ele dizia que não fazia sentido preocuparmo-nos, porque o Lobisomem faz parte dos mecanismos de introdução das crianças à falocracia, enquanto que o Pai Natal tem que ver com a beleza e o encanto da infância, com a magia do inesperado, com esse valor dominante em todo o mundo que consiste em habituarmo-nos desde pequenos a que a melhor maneira de lidar com a dureza do dia-a-dia é iludirmo-nos com fantasias absurdas mediante as quais possamos trocar o nosso progresso intelectual por uma boa dose de conforto hipócrita. Para ele, um confronto com o Lobisomem nunca faria sentido. Agora, sabe-se lá o que terá acontecido. O Lobisomem é capaz dos actos mais abomináveis.”
Os sentimentos dominantes na base do Pai Natal no Pólo Norte são de incredulidade e profunda consternação, pois a confirmar-se que o “Excremento Fóssil”, como é carinhosamente chamado pelos que lhe são mais próximos, terá sido atacado pelo Lobisomem, ninguém consegue explicar a causa desta mudança de clima no delicado equilíbrio fabuloso que envolve a nossa realidade terrena, nem qual será o desfecho dessa mudança. Embora no que respeita ao Pai Natal, e caso não se encontre uma solução para esta crise em tempo útil, as repercussões dos acontecimentos de ontem só se venham a fazer sentir daqui a um ano, espera-se que outros planos da realidade alternativa sejam afectados de forma bastante sensível e imediata. O primeiro sinal foi já dado pelos serviços da Virgem Maria, que anunciaram o cancelamento de todas as aparições agendadas para os próximos meses que coincidissem com a Lua Cheia, aguardando-se para breve a comunicação do calendário milagreiro de 2005 reformulado. |
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Boas Festas v2.004
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A Agrafo Network Systems Consulting & Filhos, Lda., deseja a todos(as) os(as) seus(uas) amigos(as) e colaboradores(as) um ______________ Natal e um Ano Novo ______________, se for esse o caso.
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Falar para as paredes
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– Não rodopiaste debaixo das gambiarras que contaminam a cidade e as serras, não sorriste às criancinhas por entre as ondas do teu cachecol, não compraste castanhas serôdias na Baixa...
– Mas...
– Não te deixaste envolver pelas músicas, não te embriagaste nas imagens, não te excitaste demoradamente com a passagem do fresco por entre a roupa e o corpo, não te perdeste na expectativa saborosa do dia seguinte...
– Mas...
– Não quiseste a ilusão saudável dos dias e recusaste a doçura acrílica das noites, não abdicaste da tua nojenta consciência e quiseste despertá-la nos outros, não quiseste ajudar às novas rotinas e entristeceste-te com as tuas irregularidades...
– Mas...
– Mas o quê?
– Eu só queria comprar uma prenda para alguém de quem não gosto.
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Menos um
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Na Segurança Social, hoje à tarde, ficaram encantados por eu os deixar tirar fotocópias de uma legislação acerca da qual eu pretendia alguns esclarecimentos, mas que eles desconheciam. Agradeceram-me genuinamente e ficaram de me esclarecer um dia destes.
À hora do almoço, Cocó e Ranheta (o Facada faltou) fizeram o país parar em frente à televisão para não dizerem nada, o que mesmo assim é uma grande vantagem sobre o que tem sido costume.
Não há nada que esta gente não faça para estragar o solstício a uma pessoa. |
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Solstício de Inferno
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Hoje é o solstício de Inverno de 2004, A.D. Para quem não sabe, é um dia místico que convida à fusão com os elementos, conhecidos e desconhecidos, que formam connosco um todo que a nossa insegurança insiste em dividir, em separar -- em analisar! Hoje é um bom dia para perceber que a unidade não é inimiga da diversidade. Hoje é quando o Sol começa a ganhar balanço para vir novamente para estas bandas.
Hoje é o dia com mais noite do ano.
Mas tudo o que o Instituto de Meteorologia tem para nos dizer acerca de hoje é que será um dia de “céu pouco nublado, apresentando-se com períodos de muita nebulosidade até ao início da manhã. Vento em geral fraco (10 a 20 km/h) de nordeste, soprando moderado a forte (20 a 40 km/h) no litoral e nas terras altas. Descida da temperatura, em especial da mínima. Formação de geada ou gelo em especial nas regiões do interior.”
Há semanas, num debate na Dois dois pontos sobre as energias renováveis, alguém que falava da energia solar referiu-se à noite como tratando-se de um “factor estrutural” que diminuía a sua rentabilidade.
O sol do Stonehenge será cortado por quilómetros horários de vento e a longa noite dos poetas é um factor estrutural. Mais logo, estará tudo preocupado com o agasalho, com a escuridão à saída e à entrada do emprego, com a prenda que falta comprar para o Grande Regabofe Comercial Anual (também conhecido, nalguns meios de menor erudição, pelo nome abreviado de “Natal”). E entretanto terá passado mais um solstício de Inverno em que ninguém reparou, a que ninguém ligou nenhuma, em que montes de coisas boas, daquelas que são bem educadas e não se nos impõem, aconteceram sem que tivéssemos a delicadeza de perder um segundo com elas.
Hoje é um dia importante, caso ainda não tenham reparado. Considerem-se informados(as). Depois não me venham com lamúrias.
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Bizarrómetro
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Raramente me lembro de que sonhei e ainda mais raramente me lembro do que sonhei. Vantagens e desvantagens de ter um sono pesado ou outra razão que desconheço? Não interessa. Mas a noite passada foi uma das espaçadas excepções à regra. Agora, tantas horas passadas sobre o evento, já só me lembro que era um sonho um pouco perturbante, mais bizarro que desagradável, em que a dada altura eu estava acompanhado de outras pessoas (não sei quais) num restaurante que tinha exposto, como sistema para cortar o apetite às pessoas e impedi-las de comerem demais, um grande frasco de formol com uma cabeça humana a flutuar lá dentro. Acordei ligeiramente e, ao dar-me conta do que tinha acabado de sonhar, desatei a rir, o que retardou em alguns minutos o meu regresso ao sono.
Alguém conhece um bom psiquiatra?
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The Air-Conditioned Diaries
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Começou por ser apenas um pormenor humorístico num dia bastante preenchido. A minha chegada triunfal àquele aposento maravilhoso foi imediatamente ensombrada por um papelinho cuidadosamente deixado em cima da mesa que anunciava ser aquele um quarto para não fumadores. “Deus dá com uma mão e tira com a outra”, pensei eu. Se por um lado o meu nível era finalmente reconhecido e eu estava alojado num hotel de quatro estrelas, por outro impunham-me, de chofre, uma limitação inaceitável num quarto cuja gigantesca janela de vidro fumado não abria mais que uma nesga, provavelmente para impedir que algum cliente mais desesperado com tanto conforto tentasse suicidar-se.
Deixei a mala sentada perto da porta e dirigi-me através do calor automático das entranhas do hotel até à recepção, onde o recepcionista, ladeado pelo sorridente paquete a quem eu, minutos antes, tinha frustrado as possibilidades de gorjeta ao levar a minha bagagem para o quarto, me encarou com aquele ar estudado mas (sim, mas) eficaz que seria de esperar. Perguntei-lhe se não seria possível mudarem-me para um quarto onde pudesse fumar. Ele respondeu-me que não tinham mais nenhum quarto com aquela cama (enorme) disponível, mas que a única diferença entre os quartos para fumadores e não fumadores era a presença de um cinzeiro, pelo que o funcionário (o tal paquete) iria imediatamente equipar o meu quarto com os adereços indispensáveis à correcta e asseada prática do meu vício. Mas ainda o recepcionista não tinha acabado de o dizer e já o paquete, sempre sorridente, vinha do compartimento atrás da recepção, para onde se tinha esgueirado segundos antes, com um cinzeiro barato de vidro que me estendeu com um gesto delicado da cabeça e um sorriso ainda mais rasgado. Eu agradeci, meio engasgado pela vontade de rir, e voltei para o quarto.
Acontece que tinha sido essa a noite escolhida pelo meu tortuoso e temperamental destino para ir ver The Motorcycle Diaries, aquele filme a que a habitual subtileza da tradução à portuguesa transformou em Diários de Che Guevara. É um filme belo, estranho e de classificação difícil: é político, incontornavelmente político, mas porque é uma espécie de prequel da vida pública de uma das figuras politicamente mais marcantes do século XX apresentada sob a forma de um road movie de bom gosto. O mais fascinante é como o realizador conseguiu nunca forçar demasiado a nota, erro que teria sido fácil e lucrativo de cometer algumas dezenas de vezes ao longo do filme.
Mas o mais relevante é a forma como o filme “mostra” (ou romanceia) um período fundamental ou mesmo propiciador da actividade revolucionária que haveria de terminar com a beatificação de Ernesto Guevara, um período até então excepcional na sua vida que transformou a sua visão da América do Sul e, consequentemente, do mundo. De volta para o hotel, atravessando o frio automático das ruas de Coimbra, não me pude impedir de pensar até que ponto a provação, certamente excepcional, de ser alojado num hotel de 4 estrelas não seria constitutiva de uma nova forma de eu encarar a vida; ou de imaginar o papel anónimo e já hoje sem as feições definidas para além do sorriso que o paquete terá na ideia que faço da minha terra, da minha gente. Pensei mesmo se não seria de escrever um diário dos dias e das noites que se seguiriam, não fosse dar-se o caso de alguém, um dia mais tarde, querer fazer um filme. Mas os plings do elevador, o cansaço, a falta de tempo e as inesgotáveis possibilidades de mobilidade horizontal proporcionadas por aquela cama tiraram-me daí a ideia. Fica para a próxima.
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Momento quixotesco da semana
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Será que no futuro, quando toda a crista de monte for um parque eólico e nos alimentarmos de tiras de cegonha, haverá um momento em que, estando os moinhos todos virados na mesma direcção, o país -- talvez a Ibéria, agora jangada a motor -- será propulsionado e se mova, nem que apenas um bocadinho?
E será isso bom ou mau? Provavelmente, dependerá do para onde. Mas um dia em que o Ministro da Economia inaugurou um parque eólico que funciona há já um ano que é vizinho de uma aldeia transmontana que não tem, nem é previsível que venha a ter, electricidade (!), é um dia bom para fazer perguntas, não para dar respostas.
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Risco iminente
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"Efectivamente, arriscar-nos-íamos, se houvesse um Estado de homens de bem, a que houvesse competições para não governar, como agora as há para alcançar o poder, e tornar-se-ia então evidente que o verdadeiro chefe não nasceu para velar pela sua conveniência, mas pela dos seus súbditos."
Platão, A República
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Jogo da Glória
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O Presidente da República deverá despachar os seus assuntos até pelo menos 6 meses antes do final do seu mandato porque nessa altura, tal como nos 6 primeiros meses, está a fazer figura de corpo presente, completamente desprovido dos seus poderes devido a um mecanismo de segurança constitucional que se destina a garantir que o Presidente não tem entrada de leão e tem saída de sendeiro.
Caiu na casa da cobra: perde uma jogada.
O Presidente da República pode decidir discricionariamente se o dia das eleições será 55, 56, 57, 58, 59 ou 60 dias após a assinatura do decreto de dissolução da Assembleia da República. Se ao Presidente da República não chegar toda esta liberdade descontrolada, poderá jogar livremente com o dia da assinatura do decreto de dissolução da Assembleia da República.
Jogou o dado e saiu 6: avança 12 casas.
Uma solução para as situações em que o Governo demonstra ser manifestamente incompetente consiste em dissolver o órgão responsável pela sua fiscalização, de onde se infere que o “sistema” reconhece implicitamente que esse órgão não tem, como toda a gente sabe que não tem, capacidade prática para efectuar essa fiscalização e que caberá ao Presidente da República providenciar para que esse órgão seja reeleito, sabendo-se de antemão que tal ocorrência não irá ter qualquer efeito sobre a sua incapacidade.
Caiu na casa do tesouro: joga novamente.
A eleição dos deputados que constituirão a próxima Assembleia da República, da qual emanará o Governo que substituirá o presente sob convite mais ou menos condicionado do Presidente da República, será efectuada através da votação popular em listas distritais plurinominais de candidatos que nem facilitam a formação de maiorias absolutas, nem garantem uma representação dos partidos proporcional aos votos que obtiveram, nem contribuem para tornar os deputados independentes das direcções dos partidos nas listas dos quais foram eleitos.
Caiu na casa do abismo: volta ao princípio do tabuleiro.
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Sangue de porco
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E na sua caminhada imparável para o Futuro (com letra grande, já que o minúsculo não é, definitivamente, coisa que nos interesse), Portugal ganhou mais uma capital: Foz de Arouce, insigne freguesia do concelho da Lousã, autoproclamou-se Capital do Sarrabulho. O único local da aldeia que dá nome à freguesia onde as pessoas param quando vão a caminho de outro sítio qualquer, uns semáforos cuja existência se deve à triste largura da ponte sobre o Rio Arouce, ostenta agora um cartaz com o anúncio da ascensão e a referência a 4 ou 5 restaurantes onde, acreditamos nós, a especialidade culinária em questão é confeccionada com particular esmero.
Depois da guerra fratricida que opôs (opõe?) Miranda do Corvo, Capital da Chanfana, a Vila Nova de Poiares, Capital Universal da Chanfana, este sinal dado por Foz de Arouce leva-me a crer que esta tendência das capitais segue agora uma via marcadamente gastronómica, pelo menos na zona interior do Distrito de Coimbra. E neste caso a escolha do prato tradicional é curiosa, já que o gado que mais salta à vista de quem passa em Foz de Arouce são as vacas que, duas vezes por dia, obrigam ao corte do trânsito na estrada nacional que, como é costume das estradas nacionais, serve de rua central à aldeia, logo a seguir aos tais semáforos. São, por assim dizer, vacas que comutam entre casa e trabalho, o estábulo e o pasto que em virtude da ocidentalização do Pinhal Interior Norte já não se encontram lado a lado como nos tempos repousados da nossa doce memória campestre. Porcos, nunca vi e se não estou em erro o sarrabulho é mais porcos. Pode ser que os haja, mas como não têm precisão de pasto e, portanto, de deslocação, ninguém os vê, perdidos algures na imensidão sub-rural de Foz de Arouce.
Mas vendo bem as coisas, é absurda e tacanha a minha estranheza. Afinal, o prato tradicional português por excelência é o bacalhau, peixe que não quer nada com águas destas bandas. Importam os porcos de uma capital de outra coisa qualquer e pronto. Ou compram-nos no Continente. Ou.
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O saber não ocupa lugar
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Sejamos claros: nada me move contra os alfabetos, antes pelo contrário. Considero mesmo que o design de alfabetos tipográficos é, na sua discrição, uma das mais nobres vertentes daquela disciplina, infelizmente enxovalhada diariamente por milhões de utilizadores de ferramentas de processamento de texto espalhados pelo mundo inteiro, felizes na sua sempre menosprezada ignorância (vide os «cartazes» em Algerian, os textos em Comic Sans MS, as teses em Times New Roman). Mas há algo que me preocupa e que por vezes não me deixa dormir: por que é que tanta gente insiste em fazer alfabetos em ponto cruz? Não há feira de artesanato que não tenha uma ou duas bancas («stands»...) de ponto cruz invariavelmente repletas de alfabetos. Porquê, meu Deus, porquê? Números, por exemplo, é muito mais raro.
Uma explicação que me vem à cabeça é a de que, sendo o ponto cruz das primeiras coisas que se ensina as crianças a fazer com agulha e linha, se aproveite esta actividade para estimular a adesão dos espíritos jovens ao mundo letrado. Mas a esta suposição temos de acrescentar o facto de que quem permanece ligado à realidade do ponto cruz continua a fazer alfabetos ad nauseam, e isto coloca uma questão: ou a razão dos alfabetos em ponto cruz nada tem que ver com uma inusitada preocupação com os níveis de literacia ou essa preocupação não dá grandes resultados quando canalizada através do ponto cruz. Ou as duas. Sim, porque se desse resultado, as pessoas a dado ponto passariam do alfabeto para a sua utilização mais ou menos criativa, quer ao nível do design, quer daquela coisa interessantíssima que consiste em juntar várias letras para formar palavras e por aí adiante. Mas nada disto se passa: os alfabetos são sempre iguais e são sempre alfabetos e nada mais, podendo, em casos extremos de genialidade, dar lugar a quadros com nomes de pessoas.
E é assim que apelo a toda a comunidade cibernauta lusófona para que me esclareça esta dúvida torturante: qual é a razão de ser dos alfabetos em ponto cruz? Outras grandes dúvidas há acerca da realidade envolvente, como a razão por que o ponto cruz é sempre bordado em tela branca e com linha azul bebé ou cor-de-rosa, ou a razão por que ainda há quem venda (e, portanto, quem compre) um produto que, se não estou enganado, já existe em quantidade mais que suficiente para abastecer a humanidade durante os próximos séculos (mesmo partindo do princípio que a humanidade terá, como tem tido até hoje, uma necessidade tão grande de alfabetos em ponto cruz). Mas para estas dúvidas menores estou-me um bocado nas tintas, eu queria era que me esclarecessem acerca da principal, da fundamental, daquele «Porquê» primordial que me atormenta. Se pelo caminho me souberem responder ao resto, óptimo, o saber não ocupa lugar, mas não precisam de se preocupar demasiado. |
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Pôr lá as patas ou não pôr lá as patas, eis a primeira questão
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Andávamos todos tristes e cabisbaixos, as dívidas do SNS às farmácias aumentavam a olhos vistos à conta dos antidepressivos, o país estava finalmente a transformar-se no pântano da profecia. A razão? Falta de novidades. Nas sociedades ocidentais e em Portugal já não conseguimos viver sem uma dose regular de novidades para comprar, ouvir, ver, cheirar, tocar, saborear e por aí adiante. Nada dura mais que umas semanas, na melhor das hipóteses, e a ausência prolongada de substitutos lança-nos a todos naquela tristeza profunda de quem sente que já não há futuro digno desse nome.
Mas o destino tem estes hábitos poucos temperados e se há uma semana atrás não se passava nada, hoje passa-se tudo: vamos ter eleições e temos mais uma bronca no futebol (“corrupção no fenómeno desportivo”, como se diz naquela doença eufemística em que o pretensiosismo jurídico e o analfabetismo jornalístico estão a transformar a outrora resplandecente Língua Portuguesa). Isso do futebol não interessa para nada, é só mais uma vez o Pinto da Costa e os árbitros e mais uma data de investigações e assim que não podem, de forma alguma, dar resultados, não vão uns milhares de doentes da bola sublevar-se, atiçados por aquelas pessoas que fazem vida de excitar as massas com regionalismos com hora marcada e a que vulgarmente se chama “autarcas da área metropolitana do Porto”). Mas haver eleições, isso é outra conversa.
Dizia há dias o JMD Barroso, Presidente da Comichão Europeia, que gosta muito de parlamentos. Pois eu não só gosto muito de parlamentos como gosto ainda mais de eleições, sejam elas quais forem. Até de referendos, que não sendo propriamente eleições têm toda aquela mobilização de imensas massas de eleitores. Mas as minhas preferidas são as eleições legislativas. Os círculos, o método de Hondt, os cabeças de lista, as contas para ver que maiorias se podem formar, as tournées de comícios, as declarações dos populares (não necessariamente do Partido Popular), tudo aquilo é giríssimo. As eleições legislativas são as mais complexas e completas de todas as eleições, até porque é do que nelas se elege que é emanado o Governo. É assim tipo reacção em cadeia: nós elegemos os deputados, que por sua vez elegem o Governo, o Presidente da Assembleia da República e toda uma corte de representantes e organismos oficiais, desde altas autoridades até conselhos consultivos, vinculativos, vomitivos e outros. É mesmo engraçado. Tipo Mega Ciência, mas para muito melhor.
E desta vez até temos bónus: dois dos partidos com assento parlamentar apresentam-se com líderes novos. E o que a gente quer é novidades! No PS, temos o Sócrates, que já é uma novidade com alguns meses, mas como ainda não disse nada que se aproveitasse conta como se fosse novinho em folha. Além do mais, aparece sempre um primor de bem-posto, claramente apontado para o eleitorado feminino (com menos uns aninhos e também seria para o masculino, mas não se pode ter tudo) e com um discurso vácuo mas de palavras sempre muito bem escolhidas. Parece-me que o grande trunfo de Sócrates serão os amores platónicos o que, não sendo novo, é sempre divertido. E também temos novo robô no PC, este sim cooptado de fresco numa linda cerimónia decorrida o fim-de-semana passado na cintura industrial de Lisboa (onde mais?). Este novo robô, embora não diga nada de novo, já não reproduz cassetes, mas sim cartões de memória Secure Digital, o que permite uma reprodução muito mais fiel e sem perdas dos conteúdos seleccionados pelo utilizador/dono. Aliás, não sei se já repararam, mas pela primeira vez em 12 anos o PCP tem um secretário-geral de cujo discurso se perceberam as palavras todas. E, isso sim, é uma grande novidade.
Com as novas aquisições e o calibre dos que já cá estavam -- a demagogia light e politicamente correcta de Louçã, a descoordenação patológica de Santana e o charme assanhado de Portas -- vamos ter um campeonato, perdão, uma campanha eleitoral que irá seguramente mais baixo que nenhuma outra até agora em Portugal. Ena ena. Será desta que eu ganho coragem para nem lá pôr as patas? Quem sabe.
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Machina Ex Deus
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Cabia ao acordeonista Kimmo Pohjonen, acompanhado pelo acariciador de electrodomésticos Samuli Kosminen (dos Múm), a difícil tarefa de me encher as medidas. Eu já não ia a um concerto desde tempos imemoriais e não era qualquer coisinha, por mais simpática que fosse, que me iria satisfazer a fome.
Isto era a minha expecativa antes de entrar para o Teatro Académico Gil Vicente, quando tudo o que conhecia do finlandês maravilha eram os louvores exacerbados da crítica e um nome élfico que me tinha ficado na memória (mais ou menos). No fim do concerto, estava à beira da congestão: uma hora e meia de luxúria pagã, xamanística em certos momentos, uma hora e meia de viagem aos primórdios da criação. No fim do concerto, torrentes de lava escorriam da porta da sala e pela Sá da Bandeira abaixo. Só a luz da manhã poderá permitir uma avaliação dos estragos de que Coimbra jamais se recomporá. Mas Kimmo, completamente possuído, não pode ser responsabilizado: o acordeão faz dele o que quer e bem lhe apetece.
Magnífico.
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