Tal como aqueles casais que vão passar todos os fins-de-semana fora para iludirem a evidência de que não se suportam, como aquelas pessoas que planeiam a vida numa lógica de grandes grupos de amigos para não terem de admitir que não querem estar com ninguém, como aquelas pessoas que fogem do tempo desocupado para não terem de estar consigo próprias, como aquelas pessoas que se afogam em trabalho para não terem de ver que só têm coragem para fazer o que tem de ser feito, tal como todas estas figuras simpáticas que povoam e são os nossos quotidianos, o Meu Cérebro é um cobarde. Eu não, eu sou uma criatura ousada, independente e desempoeirada que o destino presenteou com um cérebro assim. As funções neurovegetativas são umas porreiraças, o resto é o que se vê.
Para evitar fixar-se numa ideia, provavelmente porque sabe tratar-se de uma ideia pouco agradável, o Meu Cérebro entrou no modo projector de diapositivos, em que a cada 5 segundos surge uma ideia nova que substitui a anterior. E leva nisto dias inteiros, quando não as noites também. Ele são ideias que se comem, expulsam, embrulham, geram e parem umas à outras num contínuo que parece violento dito desta forma, mas cuja função é precisamente a de fugir à violência inevitável caso o Meu Cérebro se fixasse em qualquer coisa durante algumas horas seguidas. É o escândalo do infrutífero, é a frivolidade fabricada atrás da fachada da fábrica de conteúdos. Eu já o conheço. Afinal, é o Meu Cérebro.
Isto também tem que ver com o tempo, neste caso o meteorológico. Esta ausência prolongada de chuva, por mais agradável que seja, está a permitir ao Meu Cérebro escapar à rotina habitual nos dias invernosos de doses maciças de Arvo Pärt e horas de tristeza reflexiva e autofágica a olhar para o tecto. Esses dias também têm o seu papel no meu ciclo anual de humores, a par dos dias revigorantes de Primavera, dos dias planos de Verão e da melancolia arroz-doce dos dias de Outono. Isto, a continuar assim como está agora, vai dar um trabalhão a arrumar de novo nos sítios do costume. Também se pode dar o caso de ter que ser tudo arrumado em sítios novos, mas para saber isso vou ter de esperar que o Meu Cérebro volte do seu passeio pelo fascinante mundo caleidoscópico onde resolveu ir passar esta espécie de Inverno. O Meu Cérebro é um gajo muito complicado. Ainda bem que eu não sou nada assim. |