"Era uma vez um rei que tinha por costume andar de noite escutando pelas portas para saber o que se passava. Viu luzir por um buraco da fechadura, chegou o ouvido à escuta, e estavam uns sujeitos conversando. Dizia um:
- Eu antes queria uma noite dormir com a rainha, do que ter muitos contos de réis.
O rei ouviu aquilo e tomou-o de olho. No dia seguinte mandou-o vir ao palácio. O rapaz ia muito atrapalhado da sua vida. O rei tinha dado ordem ao seu cozinheiro de fazer uma jantar com favas cozidas em água e sal, favas com presunto, enfim, favas de todos os feitios. Assim que o rapaz apareceu na presença do rei, este levou-o para a mesa, e disse-lhe que era para lhe oferecer de jantar.
O rapaz obedeceu; vieram as favas cozidas, comeu. Vieram as favas guisadas, comeu; vieram as favas ensopadas, comeu. Por fim já não podia mais, e o cozinheiro sempre a trazer-lhe favas de todos os feitios. O rapaz já estava tão enjoado de favas, que pediu aos criados que lhe não trouxessem mais.
Veio o rei à sala de jantar, e perguntou-lhe:
- Então, porque é que não comes mais?
- Oh, senhor! Isto tudo são favas; comi bastante no princípio, mas agora estou já farto de favas.
- Sim, tudo são favas, quer sejam cozidas ou ensopadas. Pois vá-se você embora, e não torne a dizer que dava toda a riqueza do mundo para dormir uma noite com a rainha; e lembre-se do que lhe aconteceu, porque:
'Favas, todas são favas; e mulheres todas são mulheres.'
Assim ficou curado de tolo."
Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português. Volume I (6ª ed.), Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2002
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