Fruta da época
Há cerca de 20 anos atrás, passear pelos pequenos centros comerciais de Lisboa, invariavelmente apertados, labirínticos e desprovidos de luz natural, tal como o modelo ainda hoje dominante em Coimbra, era um dos meus empolgamentos adolescentes. O que me movia era sempre uma e a mesma coisa: encontrar as mais recentes novidades em jogos para o meu ZX Spectrum 48K. Para quem não saiba, o ZX Spectrum 48K foi um dos primeiros, senão o primeiro, “computadores pessoais” e consistia numa espécie de teclado que se ligava à televisão e a um leitor de cassetes, suporte no qual se gravavam os jogos. Estes (como os excelentes DynaBlaster e Arkanoid, por exemplo, que ainda existem em versões para PC, entre outros que se perderam para sempre no ranho electrónico dos tempos), eram postos a “correr” no leitor de cassetes cerca 5 dolorosos minutos durante os quais guinchavam até serem carregados para os ínfimos 48 Kbytes de memória do computador (cerca de 5500 vezes menos que os costumeiros 256 MB de memória RAM actuais). Depois, eram horas e horas de prazer a queimar os olhos.

A disseminação daqueles jogos era feita principalmente através da gravação ilegal das cópias também elas ilegais dos amigos ou, no meu caso, do meu primo mais velho, que me enchia cassetes BASF de 90 minutos com a multidão de jogos que possuía. Em alternativa, havia ainda as lojas de computadores que marcavam presença em todos os centros comerciais e cuja actividade consistia, principalmente, em produzir e vender cópias ilegais de jogos para o ZX Spectrum. Embora não fossem franchisings, modelo de expansão comercial que na altura ainda só era utilizado pela Igreja Católica, tinham todas o mesmo aspecto e vendiam todas as mesmíssimas coisas, mais cassete menos cassete. Eram todas demasiado pequenas para a desarrumação e óbvia falta de brio comercial dos seus proprietários/funcionários e tinham a montra ocupada na sua totalidade com cassetes que exibiam orgulhosamente as capas fotocopiadas (a preto e branco, claro). O ar de negócio fácil e desenrascado, que a memória hoje me torna tão despudorado, passava-me ao lado, não me interessava. Há 20 anos, a visão daquelas montras provocava-me uma descarga de adrenalina; hoje, a memória dessa visão causa-me alguma perplexidade. Lisboa, e talvez o resto do país, era, no início da popularização digital, uma cidade crivada de pequenos templos à ilegalidade, santuários alugados em nome do desrespeito pelos direitos de autor. E ninguém fazia nada.

Mais do que um dos meus devaneios nostálgicos, esta memória foi invocada por uma notícia que ouvi há dias na rádio: na semana que passou, um homem com os mesmos 33 anos que eu, e consequentemente com a idade de Cristo tão adequada à situação, foi a primeira pessoa em Portugal a ser condenada a prisão efectiva por ter sido apanhado a vender cópias ilegais de jogos. Não era só uma notícia, o próprio tom em que foi lida deixava claro que se tratava de um aviso, mas o que me prendeu a atenção não foi isso. Que faria ele a meio da década de 80? Ou, melhor ainda, que faz ele em 2005? Também teria um Spectrum e fez dos computadores a sua vida, mas da pior maneira? Onde é que ele aprendeu, ou pelo menos apreendeu, que copiar jogos e vendê-los é coisa que se faça? Não consigo deixar de pensar em como o primeiro preso em Portugal por venda de cópias ilegais de jogos terá agora a oportunidade de se deleitar com a forma asseada como o sistema prisional português lhe irá mostrar que nasceu fora de tempo.
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