Alguém teve a boa ideia de pôr cópias restauradas de alguns filmes do Charlie Chaplin a percorrer os cinemas do país e, da escolha que me apresentaram, decidi-me pelo Grande Ditador. Pode não ser o melhor dele, mas continua a ser, provavelmente, o melhor filme de sátira política alguma vez feito e eu farto-me de rir com aquela algaraviada pseudo-alemã que ele debita nos discursos ou sempre que se enfurece. Continua hoje, terça-feira, nos “Cinemas” Avenida em Coimbra e na quarta-feira é substituído pelo Barba Azul.
Mas ainda teve esta ida ao cinema dois pormenores curiosos (ou três, se contarmos com o facto de ninguém ter atendido ou feito chamadas telefónicas durante as mais de 2 horas do filme). O primeiro: ao meu lado, estavam dois alemães, digo eu que dos abrigados pelo Erasmus, que se fartavam de rir com a tal algaraviada do Fuei Hynkel. Entenda-se “fartar de rir” num contexto germânico, ou seja, algo bastante diferente das gargalhadas alarves e bem portuguesas do resto do público, ich incluído. O segundo: do outro lado da coxia, apenas a alguns ácaros de distância, estava um senhor de alguma idade que, volta que não volta, vocalizava baixinho. Vocalizava, simplesmente, e creio que involuntariamente também. Durante algum tempo, os vocalizos esporádicos do senhor permaneceram inexplicáveis, mas nunca demasiado incomodativos – afinal, eu consigo suportar algumas manifestações de existência do Outro numa sala de cinema. Mas, à medida que o filme avançava pelo início da noite, tornou-se evidente que aquela emissão de ruídos estava de alguma forma relacionada com uma necessidade transcendente de emissão de gases, mais concretamente sob a forma de arrotos prolongados mas de baixo volume sonoro.
Mas como nem cheirou nem deu um trangolomango ao velho a meio do filme, até nem foi mal com o burlesco do tipo tarte-na-cara do filme. Correu tudo tão bem que até pareceu mentira. Se fosse sempre assim, ia lá as mesmas vezes que vou não sendo.
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