Saudades da Guerra Fria
A primeira semana de qualquer ano merece uma análise, por breve que seja: muito embora seja uma mera (“mera”?) convenção, a realidade é que o início de um novo ano é uma ocasião de fecho ou de início de contas, de firmes resoluções que nos vão mudar a vida (pelo menos até acordarmos ressacados umas horas depois), é tempo de mensagens e declarações solenes. A primeira semana de um novo ano é quando se marca o ritmo e trolaré vamos mas é a isto que eu quero é mandar umas bocas e já chega de justificações.

Esta semana que passou, o PSD tentou introduzir na sua lista de candidatos pelo círculo eleitoral do Porto um elemento cuja agenda é ditada, reconhecidamente, por interesses antagónicos aos do PSD no Porto. Teria sido uma excelente jogada para comprar o silêncio desses mesmos interesses durante a campanha eleitoral se não se tivesse dado o caso de esse elemento ter aproveitado a circunstância de ser convidado para a lista de deputados do PSD para, depois de aceitar o convite, provocar uma situação em que o tiveram de desconvidar e armar com isso um escarcéu daqueles por que a comunicação social se baba. O elemento de que falo, Pôncio Monteiro, tornou-se internacionalmente conhecido por ter e atender dois telemóveis (um deles com câmara fotográfica e, quem sabe, municipal) em rigoroso simultâneo, um em cada ouvido.

Foi também a semana em que, finalmente, houve a primeira confirmação de uma morte portuguesa na Tailândia. Acabou o enxovalho de termos quase todos os nossos parceiros europeus com dezenas de mortos confirmados e centenas de desaparecidos e nós apenas 8 desaparecidos. É certo que a senhora em causa não tem nacionalidade portuguesa e o caso dela está a cargo do ministério dos negócios estrangeiros do país do qual ela é nacional, mas isso não interessa. Sempre é melhor uma morta sul-africana de origem portuguesa que termos de andar a arranjar primas do cunhado da tia do sogro da irmã dum sueco qualquer para termos algo de comovente com que abrir um telejornal.

E não podia ter sido melhor altura para ficarmos a saber que, em vez de uns espectaculares 2,4%, o nosso PIB só vai crescer uns míseros 1,6%. Parece que isso quer dizer que continuaremos a crescer abaixo da média da UE, facto que já não consegue escandalizar ninguém. O ministro a cargo do assunto já veio admitir o erro e justificar que quanto mais se avança para e através do ano relativamente ao qual se fazem as previsões mais fácil é acertá-las e que há 2 meses atrás, quando foi elaborado o Orçamento de Estado para 2005, a coisa parecia encaminhar-se para os 2,4%. Por esta lógica, ancorada na mais sólida e lapaliciana das verdades, como qualquer boa mentira que se preze, se dois meses conseguem produzir (e “produzir” parece-me ser a palavra mais apropriada) um erro de 0,8% do PIB, isso quer dizer que corremos o risco de acabar o ano ao nível da República Centro Africana. O que vale é que parece que não.

Mas talvez não haja motivos para preocupações. Começou a disseminar-se uma notícia proveniente do final do ano passado segundo a qual o planeta Terra será atingido por um asteróide de grandes dimensões. Local do impacto: Oceano Atlântico. Data do impacto: 2029. Se os cálculos estiverem certos e não houver nada que altere a trajectória do calhau, ou em 24 anos arranjamos os meios técnicos para resolver o problema ou confrontar-nos-emos com um dos seguintes cenários: a coisa não corre mal e num espaço de meses ou poucos anos a espécie humana terá sido liquidada, quer pela destruição imediata, quer pelas alterações climatéricas produzidas pelo impacto; a coisa corre mal e só a orla costeira do Atlântico será arrasada, embora de tal forma que o maremoto da semana passada no Índico parecerá uma simples inundação na casa de banho dos vizinhos de baixo. Quem fizer tenções de estar vivo em 2029 deverá, portanto, pensar duas vezes antes de fazer investimentos a longo prazo perto da praia, entendendo-se por “perto” umas dezenas de quilómetros. Por outro lado, convém não esquecer que o último asteróide a colocar a Terra em risco foi um que, há coisa de 3 ou 4 anos, só foi detectado vários dias depois de nos ter passado uma tangente, pelo que ninguém sabe se daqui até 2029 não levamos com outro qualquer em cima e pronto.

Quem está bem são as pessoas que construíram ou herdaram abrigos nucleares do tempo da guerra fria. Essa é que é essa. Pois pois. Ora...
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