Qual é a sua desculpa para não mentir?
Confesso que não me apetece muito, mas não posso fechar os olhos à evidência de que existe uma vasta e fiel clientela que espera que eu me pronuncie sobre isto que se tem passado, que é como quem diz a campanha eleitoral. E é só por isso, por saber que ansiais pela luz da minha sapiência, pelo mel das minhas palavras e é melhor parar por aqui antes que descambe para a ordinarice que escrevo acerca disto que se tem passado.

Quanto ao debate a quatro e meio, não há grande coisa a acrescentar. Foi o retrato perfeito de uma campanha idiota e desinteressante pontuada por pseudo-escândalos arremessados de um lado para o outro nos momentos considerados tacticamente favoráveis, ora de viva voz, ora através da imprensa, de acordo com a sua arregimentação prévia e mais ou menos conhecida.

Que dizer de um debate cujo momento alto foi (mais) uma bojarda demagógica de Francisco Louçã, que só colou devido à ignorância ou omissão táctica dos restantes participantes? Que dizer de um debate em que Portas, naquele misto perturbante de subtileza e descaramento, passou o tempo a entalar o parceiro de coligação com um discurso tão bem articulado (o melhor de todos, mais uma vez) como oco, sem nunca ter tido direito a resposta? Que dizer de um debate em que, como sempre, Sócrates não fez mais que despejar as frases que decorou independentemente de elas responderem ao que lhe foi perguntado? Que dizer daquele registo porreiraço a raiar o boçal de discussão de bêbados na tasca a seguir ao jogo que é o único ao alcance da profundidade de Santana? Que dizer de Jerónimo Sousa ter somatizado de forma tão inescapável a ausência prolongada de algo minimamente interessante para dizer?

Urge despachar os que lá estão, não sendo certo que ficaremos muito bem servidos com a substituição. Um bocadinho melhor, que não será difícil, já nos deixará à beira do arrebatamento, ou nem por isso. O certo é que até o voto em branco nos foi roubado: a campanha pelo voto em branco foi apropriada por um grupo de anónimos (Um rumo para Portugal ou lá como é que a agremiação se chama) que defende a substituição dos políticos por técnicos. Idiotas? Fascistas encapotados? As duas? Nenhuma das duas é que não é opção.

Assim, no fim de analisar profundamente cada um dos elementos desta complexa realidade, ou seja, disto tudo, a única certeza que tenho é a de que era bom que as pessoas que no próximo Domingo forem convidadas a pronunciar-se numa sondagem à boca das urnas mintam. Digam que votaram num daqueles partidos residuais em quem ninguém vota. É a única campanha que vale a pena: “No Domingo, Mente”. À falta de outros prazeres mais consistentes, como por exemplo a simples suspeita de que talvez haja a possibilidade de, eventualmente, virmos a ter um governo minimamente decente, já não seria mau podermos assistir ao embaraço dos jornalistas ao terem de apresentar primeiras projecções de resultados que dessem a maioria absoluta ao PCTP/MRPP ou à Nova Democracia. Ou ao Partido Humanista, que é tão simpático e puro.
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