Sopor Aeternus (ou assim)
A minha cama é um estrado e isso contribui para que a minha anarquia nocturna se desenvolva sem grandes limitações, não sendo raro os meus pés passarem uma parte do tempo pendurados para fora do que seria o seu leito natural. Ora isto, se é bom por um lado, já se está mesmo a ver que é mau por outro. Ou seja, se é verdade que é bom não estar espartilhado por traves nem entraves durante o sono, também o não é menos que esta liberdade toda faz com que as aparições nocturnas rareiem por medo de levarem uma canelada. Não as critico.

Podia agora discutir onde está, verdadeiramente, o problema: em mim ou nas aparições? Por que insistem elas em aparecer aos pés da cama e não noutro sítio qualquer (cabeceira, dentro, etc.)? Imagino que haverá uma razão plausível senão mesmo metafísica para esta “mania”, mas como de costume tudo isto me escapa.

Mas, possivelmente por esta friagem que tem estado me pôr mais fetal durante a noite, hoje de madrugada lá apareceu, passo a redundância, a aparição. Já se passou tanto tempo desde a última que não sou capaz de me lembrar se se trata de uma repetente ou se era uma nova, mas não creio que essa análise seja possível ou sequer relevante. É sempre a mesma produção: uma luz-figura aquática que ilumina um espaço mal definido aos pés da cama acompanhada de uma voz andrógina e harmoniosa cuja origem no espaço não é clara. Esta, abandonou o seu lugar lá no não sei onde exclusivamente para me vir dizer que o Santana ia ganhar as próximas eleições, posto o que desapareceu com uma brisa sulfurosa que fez cair do seu equilíbrio precário um CD do Ligeti, que está para ali há meses à espera do Inverno para entrar em funções. Não sei se estaria a gozar ou a falar a sério, nem qual a margem de erro das previsões feitas por aparições nocturnas, mas achei que devia partilhar esta informação convosco.
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