É tão fácil perder aquilo com que se quer ficar. Um descuido é quanto basta para se ficar privado de um simples objecto simples. Um cálculo errado na extensa e indecifrável contabilidade dos sentimentos e lá se vai um simples objecto de desejo. Uma distracção no olhar e já nos perdemos do caminho que queríamos percorrer. Uma dose excessiva de orgulho e nunca mais nos encontramos no objectivo que os sonhos silenciosamente revelam como sendo o correcto. Tudo aquilo que ou de que não nos queremos perder é fácil de nunca mais encontrar, tão fácil que até está ao nosso alcance provocar a perda de forma consciente.
O difícil, mas mesmo muito difícil, é perdermo-nos de nós próprios. Essa perda, essa magnífica perda, não pode normalmente ser provocada a não ser às custas da mais pura irresponsabilidade e de um fechar de olhos perante as outras perdas que vêm agarradas a esta. A alternativa, pouco corajosa, é pormo-nos a jeito, mesmo na beirinha dos rochedos e esperar que a onda certa apareça e nos leve. E ter esperança de que o medo não nos prenda demasiado ao chão. E perder a bússola, por descuido. |