No passado Domingo, dia 13 de Março de 2005 A.D., fumei aquele que veio a ser o meu último cigarro até mais ver. A parafernália medicamentosa já estava há uns dias a postos, esperando iniciar a sua missão de substituição dos cigarros com a chegada do dia previamente decidido. Era para ser apenas mais um cigarro, afinal ainda pouco passava das 11 da noite, mas a crescente ansiedade levou-me a decidir uma ida precoce para a cama e aquele acabou por ser, sem glória nem festejos, o último cigarro.
Em 2002 aconteceu a mesma coisa a Durão Barroso: toda a gente o tinha como mais um líder transitório do PSD que seria substituído por alguém a sério a tempo das eleições que se previam para daí a 1 ano e tal quando, inesperadamente, o Governo de Guterres cai e lá foi ele para Primeiro-ministro. Acontece aos políticos, acontece aos cigarros, é uma das grandes e inevitáveis leis da vida.
Espero não ter, daqui a uns tempos, o desprazer de uma versão tabágica e pessoal do Santana Lopes, caso em que, à cautela, não hesitarei em dissolver-me.
Isto tudo para dizer que faz hoje 5 dias que deixei de fumar. Não é que me pareça especialmente útil tentar substituir a falta de cerimonial do último cigarro com o assinalar de uma efeméride ainda tão precária. Cerimoniais, deixá-los-ei para as minhas últimas palavras, já há muito decididas e cuja pronúncia está prevista para daqui a uns anos, quando estiver numa cama de dossel, acompanhado pelos meus acólitos e uma Playstation. Este anúncio deve-se à minha necessidade de assumir perante esta sociedade que faço o favor de aturar a minha condição de drogado transdérmico, algo que tenho escondido por razões que se prendem com a tentativa, porventura fútil, de preservar os bocados restantes da minha estabilidade emocional ao longo de um processo que promete ser bastante complicado. Mas agora chega. Não, eu não sou aquele ser impoluto que os olhos enganadoramente vos apresentam: eu ando com um penso apenso ao ombro que continuamente dispensa ao meu organismo uma dose cavalar de nicotina e esta será a minha realidade durante os meses ou anos necessários ao desaparecimento do vício psicológico.
Durante os próximos tempos hei-de dar conta, aqui neste espaço, dos progressos, fracassos e reflexões suscitadas por esta minha nova e perturbante condição. Para já, quero terminar e não pensar mais nisso hoje, mas não sem antes deixar uma palavra de agradecimento à Pfizer, fabricante dos Nicorette que diariamente colo no ombro, pelo excelente produto que desenvolveu e, principalmente, pelo facto de não lhe ter chamado “pensos”, “selos” ou outro desses nomes ridículos que os menos informados chamam às coisas. Saber que o que estou a colar na pele todas as manhãs é nada mais, nada menos que um “sistema transdérmico” tem um efeito psicológico… avassalador. Obrigadinho pela ajuda. |