Enquanto o Papa vai punindo o corpo para júbilo irremissível de milhares de almas sadomasoquistas em todo o mundo, a ICAR (Igreja Católica Apostólica Romana) aproveita-se lentamente do seu vigoroso exemplo para continuar a tomar conta do nicho de mercado sentimental (em franca expansão) das pessoas incapazes de aceitar e mesmo apreciar a finitude da vida humana. Bem vistas as coisas, não é difícil de lá chegar: se fomos feitos à Sua imagem e semelhança, por que raio não havemos de ser imortais? Bem vistas as coisas, ninguém quer ver os seus mais próximos mortos e essa é uma fragilidade fácil de transformar em algo muito mais lucrativo.
Não deixa de ser curioso que o grande trunfo da ICAR seja, hoje em dia, a par do refluxo ultra conservador, a aceitação cada vez menor que nas sociedades ocidentais tem a ideia de que, mais tarde ou mais cedo, por uma razão ou por outra, todos havemos de dar o berro, uma concepção da vida e da morte só permitida pelos avanços do seu arqui-rival deus-ciência. Num mundo em que existe a possibilidade técnica (embora pouco económica) de vermos os nossos entes queridos “viver” para sempre ou quase, ainda que sob forma de meros conversores de oxigénio em dióxido de carbono ligados à corrente, a ICAR, com o seu fanatismo pró-vegetativo, volta a ser o refúgio confortável para muitas insuficiências dolorosas das sociedades contemporâneas que ela própria ajudou a criar. Convém que se esclareça que “dor” é, na língua da ICAR, não aquilo com que devemos aprender a viver, mas o local onde devemos aprender a viver às custas de umas ladainhas e outras penitências pouco variadas mas isentas de IVA ou da necessidade de receita médica.
Há quem goste de levar uma estranha forma de vida, há quem pretenda que sejamos estranhas formas de vida. As cartas foram baralhadas ao sabor dos jogos semânticos de quem sempre soube ver na produção e consequente manipulação do medo a mais eficaz das armas de paralisia em massa, mas o jogo continua o mesmo de sempre. |