O enorme vaso redondo de sardinheiras tinha permanecido sobre o parapeito da varanda do primeiro andar vários anos após todo o prédio ter sido abandonado. Talvez o peso do vaso tivesse demovido os herdeiros da morte que vagou o último apartamento, talvez os bombeiros o tivessem pensado um ornamento do edifício, e ele lá foi ficando por cortesia da física com as suas sardinheiras, gigantescas por cortesia da biologia, empoleirado num prédio cortesmente mantido enquanto tal por umas escoras mandadas pela protecção civil.
Tudo isto e mais que não interessa até um dia em que a dissolução do parapeito e do resto a que permanecia agarrado foi ajudada por uma brisa vulgaríssima, daquelas que correm quase todos os dias pela cidade quando o sol já prepara a sua descida final. Teve azar a Dona Vina, velha diminuição de algo já ignorado até pela própria, que naquela altura descia a rua ajoujada com os sacos das compras e os pés contraídos na tentativa de agarrar as pantufas de trazer por fora ao empedrado íngreme da rua. Menos 30 metros e ainda estaria na mercearia a pagar os enlatados e as 2 horas de conversa; mais 20 metros e já estaria a debater-se com as escadas decrépitas do seu terceiro andar alugado por trocos e um sorriso engelhado. Esse último trabalho foi-lhe poupado pelo vaso de sardinheiras, que lhe acertou em cheio na cabeça para logo se precipitar no chão com ela. Junto ao prédio escorado, o vaso partido em dois grandes bocados e uma quantidade de cacos minúsculos, um monte de terra que parecia nascido das pedras do chão e as sardinheiras, como sempre ostentando a sua fleuma vegetal perante os acontecimentos humanos. Mesmo ao lado, ocupando o que restava da largura da rua, a Dona Vina caída de borco com os braços quase junto ao corpo e os sacos quase junto aos braços. Pela rua abaixo, latas de comida e alguma massa encefálica, esta prontamente devorada pelos cães decorativos do bairro a quem aquilo fez lembrar a ração de tempos melhores.
E a seguir não voltou a acontecer nada capaz de alterar o delicado equilíbrio da cidade por tanto tempo que até pareceu para sempre. |