O maravilhoso mundo da droga
Se é verdade que terei de esperar pelos exames médicos para saber a extensão dos estragos provocados por 18 anos de tabagismo descontrolado, os efeitos sobre a minha identidade estão já estendidos com a maior desvergonha à minha frente. Só havia um facto acerca do qual eu não suscitava dúvidas a ninguém e esse era o facto de eu estar sempre com um cigarro ou toda a parafernália necessária a construir um (eu fumava de enrolar) na mão. Onde quer que estivesse e onde quer que fosse, com excepção dos locais onde a prática tabágica é proibida pela lei ou desaconselhada pelos mais básicos rudimentos de boa educação, lá estava eu a impregnar o ar à minha volta com aquele cheiro que, agora que descobri que tenho olfacto, me parece um nada pestilento.

Contudo, apesar de as reacções dos outros à minha passagem a não fumador terem até agora sido reveladoras de como o tabaco era algo a que a minha imagem estava muito associada, essa evidência não tem sido perturbadora, ou pelo menos não mais que divertida. Desde a incredulidade de quem não acreditou à primeira que eu, logo eu!, pudesse sequer pensar em deixar de fumar até à desilusão (o termo não é exagerado) de quem não conseguiu disfarçar que ter por perto alguém que fumava que nem uma besta aplacava os sentimentos não assumidos de culpa pelo seu próprio tabagismo, passando pela indiferença, pelo encorajamento e pela admiração, fui confrontado com um leque variado de reacções e consegui tirar prazeres de todas elas. O jogo da minha redefinição, agora com o bónus de não haver aquela que era uma âncora só revelada pelo seu desaparecimento, é sempre algo a que me entrego com irreflectido prazer.

A questão não se prende só, ou sequer principalmente, com os cigarros, mas com toda uma atitude perante a vida que está associada ao deixar de fumar sem que tenha havido um acontecimento visível que o provocasse. Isto promete.

Estranhamente, ou se calhar nem tanto, a fonte da minha perturbação identitária mais violenta está a partir da projecção que eu faço da minha imagem para mim próprio. Digo estranhamente porque não estou a referir-me à situação em que me pedem um isqueiro e eu, sem hesitações, digo que não tenho, ou àquele momento divertido em que fui confrontado com a decisão do lugar de fumador ou não fumador no comboio e em que me apercebi claramente de que tinha “mudado de lado”. Embora tudo isto sejam sensações mais fortes do que à partida as imaginava, e são-no, muito provavelmente, porque o meu anterior “lado” estava há muito debaixo de um fogo antitabágico que vai insidiosamente injectando os seus desconfortos, também tem servido para me divertir alguma coisa às minhas próprias custas. O que me perturba é reparar que me imagino nas situações futuras a fumar. Eu enceno sempre o futuro imediato e previsível. É um exercício de utilidade prática nula, uma rotina que o meu cérebro corre automaticamente, talvez como forma de dar escape a algum voyerismo reprimido, talvez só como forma de manter as inseguranças entretidas ao ponto de não se tornarem impeditivas. Mas agora reparo que, nessas encenações mentais, nessas cenas dos próximos capítulos que nunca me esforço por tornar reais, eu apareço sempre a fumar. Para que se perceba a gravidade da situação, eu não imagino a minha própria figura com formas muito definidas, e isto não é algo que eu controle previamente porque tudo isto é um exercício largamente involuntário, mas se há uma coisa que está indubitavelmente associada a essa figura vaga é o cigarro. E agora as perguntas a que (ainda?) não sei responder: isto já era assim e só agora reparo ou passou a ser assim desde que deixei de fumar? Será isto a manifestação em acordado dos sonhos que os ex-fumadores costumam ter com tabaco (e pelos quais ainda não dei) ou será isto algo que já vem de trás? E não será qualquer uma das respostas possíveis às perguntas anteriores igualmente sintomática? O certo é que se o processo de experimentar uma droga nos leva sempre a descobrir partes do nosso cérebro que nem sabíamos que existiam, o mesmo se passa com o processo de nos desviciarmos dela. Trágica e previsivelmente, ganha-se com os dois.
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