Estimulado por um acaso que me reavivou a memória, aproveitei a minha última ida ao hipermercado para procurar as adoradas mas entretanto esquecidas Yayitas, da Lu. Os meus olhos percorreram as prateleiras na antecipação da leveza matinal das Yayitas de maçã ou da suavidade exótica das Yayitas de ananás para só encontrar o infortúnio e a decepção: não só aquele que foi um dia um dos melhores produtos da categoria de inutilidades alimentares está remetido para a prateleira de cima, longe da passagem natural do olhar de quem tenha menos de 2,2 metros como já só se encontra nas duas variedades menos interessantes e um bocado burgessas de mel e de chocolate, pesadas, farelentas e estupidamente doces. Houve, portanto, um desinvestimento dos responsáveis nas Yayitas.
Controlei a minha fúria e o impulso de provocar um escândalo, derrubar algumas prateleiras ou cortar os pulsos e procurei algo que pudesse fazer as vezes das saudosas Yayitas, sabendo de antemão que tal não iria ser tarefa fácil. Não se tropeça todos os dias em algo de bom, aromático mas discreto, que se baste e que não colida com um chá verde com limão e que, ainda por cima, não seja demasiado doce. E nesta busca que reparei naqueles pequenos paralelepípedos verdes com uma abertura por onde se vê o celofane que envolve os Almond Thins, da Anna’s (baked in Sweden). Uma rápida vista de olhos pelos ingredientes foi tudo o que precisei para me decidir: farinha de trigo, açúcar, margarina vegetal, açúcar [não é engano meu, vem repetido, e nota-se pelo valor calórico, que omitirei por pudor], xarope de açúcar de beterraba, amêndoa (4,3%), bicarbonato de sódio, cravinho, aroma de amêndoa. Sem erros ortográficos nem nada. Isto de produtos suecos é outra conversa.
Agora que já provei, posso descansar o mundo quanto ao desaparecimento das Yayitas: elas já não são precisas e podem percorrer descansadas o seu deprimente caminho em direcção ao oblívio. A experiência de comer Almond Thins é inigualável, capaz de fazer renascer recantos da mente humana adormecidos há vários milénios onde a verdade primordial do nosso parentesco remoto com a amendoeira se torna evidente. O simples momento em que o celofane é violado e aquele cheiro quente e caseiro invade as nossas narinas, recordando-nos que também elas são zonas erógenas, já vale, só por si, o dinheiro que a caixa de biscoitos custou. Mas isso é apenas o início. O tocar nos biscoitos finos e em forma de flor, o acariciar as suas subtis rugosidades (a face inferior é fabulosa), sentir aquela fragilidade tão firme e a forma como estalam dentro da boca sem se esfarelarem mais que o estritamente necessário à degustação e posterior ingestão... Aliás, o trincar constitui um momento cuja descrição lançaria este blog para o campo da pornografia pura e, especialmente, dura, pelo que não me alongarei mais. O melhor que vos posso dizer é que experimentem, de preferência acompanhados por um chá quente, uma lareira, um mocho na magnólia do jardim e mais ninguém nas proximidades. |