Terça-feira
11:45, cimo da Avenida Sá da Bandeira, Coimbra. O 7 pára, eu entro, introduzo a senha de 3 viagens no obliterador de bilhetes que indica no visor o registo daquela viagem mas não devolve a senha. Pouco habituado a estas estranhas máquinas dos autocarros, meio de transporte que já não usava há uns anos, olhei em volta com cara de ponto de interrogação. A senhora que estava sentada no banco mais próximo da porta confirmou que “devia ter saído”. Virei-me para o condutor que me perguntou, antes de eu ter tempo para apresentar a minha perplexidade, “não saiu?”. Eu confirmei e ele, por detrás de uns impressionantes óculos escuros que lhe davam um ar estranhamente mafioso, pediu-me para esperar pela próxima paragem. Na paragem seguinte, entrou mais uma passageira a quem o motorista pediu que aguardasse um pouco antes de inserir o bilhete no obliterador. Esse pouco foi tão-somente o tempo necessário para que o motorista puxasse o travão de mão e desligasse o autocarro na ignição – sim, desligou o autocarro. Mais um segundo de espera e voltou a dar à chave, ligando novamente o autocarro e provocando, com isto, que o obliterador cuspisse violentamente a minha senha de 3 viagens. Tentando não mostrar hesitação, apanhei a dita cuja do chão e olhei para os restantes passageiros com esperança/medo (riscar o que não interessa) de que toda aquela cena estivesse a provocar o início de um ataque de pânico colectivo com consequências imprevisíveis para o futuro da humanidade, mas estava toda a gente imperturbável. Ainda um pouco incrédulo, afastei-me da entrada do autocarro, ocupei um lugar em pé junto à porta de saída e aí fui acometido de um desejo corrosivo por iogurte Dupla Delícia de pêssego-manga da Longa Vida, necessidade que só pude satisfazer algumas horas mais tarde.
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