Uma vez que tenho consciência de que ainda há algumas pessoas que não leram o livro, tomo a liberdade de transcrever uns excertos, que obviamente não devem substituir a leitura do todo.
“É no meio dos pequenos objectos que [o português] se sente à vontade, é neles que investe enchendo a casa de mil bibelôs, fotografias, cobrindo as paredes com coisas pequenas (...). O pequeno representa o tamanho perfeito, adequado ao seu investimento afectivo."
“(...) Se nós somos os ‘chineses do Ocidente’, nem um pouco nos assemelhamos aos japoneses. É porque não conhecemos o vazio nem por ele nos sentimos atraídos”
“Há talvez uma barreira que contribui para isso, a fascinação-repulsa que sentimos pela ausência. A ausência não é o vazio, contraria-o mesmo, em certo sentido. A ausência diz-se de uma presença, enquanto um vazio não se reporta a um cheio. O vazio é primeiro, está aquém da ausência de tudo. Quando toda a presença desaparece e deixa de haver lugar a preencher por uma coisa, então surge o vazio primordial de onde sairão as forças para, precisamente, criar, agir, pensar.”
“(...) Os portugueses são particularmente sensíveis à ausência, o que os faz constantemente ansiar pelo pleno.”
José Gil, Portugal, Hoje. O Medo de Existir.
Isto vê-se quando se entra na casa portuguesa, em que a multidão de objectos destinados a preencher o vazio já mal deixa espaço para o pão e vinho sobre a mesa. A casa portuguesa não tem um intervalo em que o olhar não encontre algo que foi colocado com o único propósito de fazer companhia, de enganar a solidão a que o nosso défice de relações pessoais significativas (ou com o significado que aprendemos a esperar delas) remete o quotidiano da larga maioria das pessoas, mesmo, ou principalmente, das mais insuspeitas. Pode-se ir mais longe que dizer dos portugueses que o vazio não os atrai, o vazio repugana-os, talvez, como escreve José Gil, por a ele associarmos a tal ausência. A vida, os espaços vitais dos portugueses, estão cheios até à saturação de coisinhas, de simulacros de algo que não conseguimos nem sabemos como obter, e isso vê-se como em mais parte nenhuma na casa portuguesa. Esta atitude tem dois efeitos imediatos: a destruição da arquitectura e a destruição dos próprios objectos.
Comecemos então pela destruição da arquitectura. Conceber uma casa para ser usufruída com prazer é, em Portugal uma perda de tempo. Imaginar a distribuição e divisão dos espaços de acordo com aquela que poderá ser a sua utilização harmoniosa e potencialmente indutora de um acréscimo na qualidade de vida de quem os venha a ocupar, ou seja, boa arquitectura, é deitar dinheiro pela janela fora. Meses de trabalho serão prontamente soterrados por bibelôs de todas as sortes e feitios pela mão decoradora dos habitantes. Aquela casa tão boa, tão espaçosa, tão luminosa e agradável, será irrevogavelmente habitada por objectos que concederão alguns estreitos corredores de vazio pelos quais as pessoas, suas convidadas, terão permissão para se movimentar: as casas em Portugal são sempre pequenas, independentemente das suas áreas.
Há uns anos, fiquei fascinado com uma casa alugada por uns conhecidos, que tive a oportunidade de visitar ainda em cru. Não era, a bem dizer, nada de especial, apenas uma antiga casa urbana de província, com os defeitos vulgarmente adstritos ao género, relativamente grande mas feita de divisões pequenas. Um pormenor, no entanto, dava àquele primeiro andar um charme difícil de encontrar nos apartamentos modernos. Acabados de subir as escadas, que faziam um canto, tínhamos à nossa frente um corredor comprido, com entradas de um lado e outro para várias divisões, que terminava, imagine-se, numa janela. Aquele fim de corredor não tinha sido aproveitado para uma casa de banho minúscula, não tinha sido comido pela engorda de nenhuma divisão e, ainda por cima, tinha uma janela que, embora sem vista para mais que a parede exterior do prédio em frente, dava à casa um espaço, uma luz e uma vontade de brincar raros. Quando voltei à casa, passadas umas semanas, já ela se encontrava mobilada e, portanto, completamente destruída. Os apertos financeiros que aconselhariam a compra de bens estritamente essenciais não foram suficientes para impedir os locatários de matar o corredor, cuja janela estava já coberta por uma cortina e precedida pela eterna mesa de camilha gloriosamente encimada por uma taça cheia de resíduos vegetais secos e perfumados. De casa antiga e encantadora, passou imediatamente a casa velha e apertada sem qualquer vantagem sobre o vulgar T qualquer coisa.
Depois, temos a destruição dos objectos. Imagine-se a família portuguesa a mudar-se para uma casa maior. Com ela, vem tudo, como é natural, desde mobília a electrodomésticos, passando pelos cacarecos. O plano de ocupação da nova casa está condicionado não à sua utilização, mas às possibilidades de arrumação da tralha, que será colocada de forma mais ou menos mimética em relação à habitação anterior. No entanto, há um problema, algo que constitui uma fonte de angustia desde o primeiro momento. A casa nova é maior e tem aquela grande parede branca, lisa, vazia. O que faremos “àquilo”? Não há, de entre a escolha preexistente, nada que chegue para encher aquele espaço, pelo que terá de se arranjar “alguma coisa” que, por obra e graça desta necessidade, se transforma automaticamente em “qualquer coisa”. A partir deste momento, já não é importante que “coisa” irá ser arranjada para pendurar naquela parede. Uma peça de artesanato comprada naquelas férias, a carta astrológica de 2005, a fotografia dos antepassados, um pirilampo mágico, uma máscara veneziana das Colecções Philae, um Picasso original, um calendário com a Pamela Anderson, um tapete de arraiolos, 300 moldurinhas com flores feitas de escamas de peixe pintadas, uma chusma de pratos de louça de Coimbra, um poster do filme da nossa vida ou o quadro do menino a chorar são todos a mesma coisa: tralha indiferenciada. O valor sentimental, artístico ou simplesmente monetário de qualquer objecto naquela parede, e naquela casa, está já colocado ao nível da parte de trás da sanita como mais uma coisa que dá trabalho a limpar. É mais uma coisa de que temos que nos desviar, é mais uma coisa que tem de se afastar para se ir para, uma coisa que tem de se mudar de sítio porque ali atrapalha quando, um buraco que tem de se tapar quando mudarmos novamente para o senhorio não protestar. Acabou-se.
O pior, é que a nossa vocação para asfixiar a vida com tralha não se passa unicamente ao nível do nosso espaço doméstico. Não se passa, aliás, só ao nível do espaço físico. É uma vocação para transformar tudo em aparência, para a anulação da substância, que daria muitas e boas conversas em torno de muito e bons livros. E não só.