Há de tudo como na farmácia
É engraçada a vontade com que os deserdados das religiões tradicionais abraçam as chamadas religiões alternativas, regra geral constituídas por bocados seleccionados do budismo e hinduísmo misturados com a interpretação mais conveniente das astrologias ao dispor. Ainda é mais engraçado ver quem se recusa a abandonar as religiões tradicionais receber de braços abertos a lufada de ar fresco do Zodíaco. Enfim, as pessoas são engraçadas e pronto, tal como eu sou engraçado neste meu niilismo inconsequente (que sempre é melhor que ser consequente e perigoso).

O Zodíaco apresenta uma grande vantagem sobre qualquer outra religião: não parece uma religião. Uma característica de qualquer crença religiosa é a de que não tem uma explicação racional. Ninguém viu um deus ou sinal irrefutável dele, tal como ninguém se lembra da sua própria alma encarnada noutro corpo e por aí adiante. A evidência de que os sinais divinos, porventura abundantes, só podem ser interpretados enquanto provenientes de um suposto além porque são procurados enquanto tal é grande e dá-se mal com uma interpretação mais básica da cultura científica (na realidade, não é necessário que sejam mutuamente exclusivos). O Zodíaco, por via da evolução que sofreu ao longo da sua já vasta história, apresenta-se hoje com uma aparência de ciência “dura” que não só permite aos seus seguidores a ilusão matemática de que não acreditam naquilo simplesmente porque sim, como que são “praticantes” de um método racional de explicação da realidade. Ou seja, são cientistas, uma categoria muito superior à de crente, por mais que essa superioridade se torne pouco evidente após alguns minutos de reflexão sobre factos conhecidos da História da Ciência, e são coitadinhos porque esse reconhecimento lhes é negado pelos poderes instituídos. Isto, claro, é válido somente para aqueles que se dedicam à coisa a sério, por oposição aos que lêem as previsões astrológicas da TV Guia e que são considerados pelos primeiros uma cambada de ignorantes que servem unicamente os propósitos mercantilistas de alguns charlatães.

Mas os signos do Zodíaco têm ainda outra vantagem: dão perfeitamente para encaixar noutra religião assumida enquanto tal e isto é particularmente útil no caso das sociedades cristãs. O cristianismo, e em especial a sua variante católica, descansam-nos quanto ao princípio (mesmo que não acreditemos na conversa do Adão e da Eva há sempre um deus vagamente antropomórfico no início de “tudo”) e quanto ao fim (mesmo que não acreditemos no paraíso e no inferno, há sempre uma esperançazinha na imortalidade da alma); mas o meio é uma grande trabalheira em que estamos sempre confrontados com a inevitabilidade de desiludir um criador de desígnios tortuosos e sadomasoquista. E é aqui que os signos do Zodíaco entram. Por mais voltas que os cultores “sérios” da prática astrológica dêem, por mais que acabem a dizer (por palavras que nem eles percebem) que a interpretação dos astros não nos diz coisíssima nenhuma, a verdade é que acreditar que as nossas deprimentes e tíbias personalidades são o produto de uma mecânica cósmica nos tira uma parte considerável do peso criminoso da responsabilidade por cada um dos nossos actos e da culpa que sentimos por não sermos capazes de os não cometer. Se há algo que hoje em dia já ninguém dispensa, é um bom analgésico, com vantagem para os que não precisam de receita médica.
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