E o Espírito Santo desceu novamente à Terra, desta feita sob a forma casta e higiénica de 115 boletins de voto preenchidos por velhotes do sexo masculino, com o propósito de transformar em papa o que de mais parecido havia com a figura de inquisidor-mor. O Espírito Santo nunca se desloca por coisa pouca e esta não foi uma excepção, ainda que, já de partida, se tenha descuidado ao entregar a questão do fumo branco/fumo negro/sinos a rebate em mãos humanas e portanto incompetentes. Tinha sido escusado e só não estragou a mística da ocasião porque os canais de televisão exploraram bem o atabalhoamento.
Bento Dezasseis de sua novíssima graça (Joseph Ratzinger de sua velha desgraça) foi, ao longo dos 23 anos em que ocupou o cargo de Ministro da Ideologia e Censura de Vatican City e enquanto eminência parda por detrás da face popularucha do falecido João Paulo Segundo, a prova flagrante de que o ecumenismo e as palavras de paz e amor ditas para as câmaras de televisão nem sempre eram de uma sinceridade desarmante. Mas agora que está investido nas suas novas funções de déspota obscurantista de um bem sucedido entreposto de lavagem de dinheiro da droga e da venda ilegal de armas e do encobrimento do abuso sexual de menores, terá de delegar em alguém igualmente férreo as funções que até ontem desempenhou com tanta dedicação a coberto dos reposteiros púrpura da Santa Sé: eliminar do espaço público os seus ministros mais tresmalhadiços e insultar por via da menorização tudo quanto se atrevesse a não ser 100% católico. O desgosto pelo abandono dessas funções será com certeza compensado pela profusão de bons candidatos ao lugar.
Por cá, pelo canteiro à beira-mar abandonado, temos a felicidade de não haver grandes histerias porque o novo papa é alemão (quando o outro disse José fiquei sem pinga de sangue), nacionalidade que não excita ninguém, ao mesmo tempo que podemos estar descansados quanto ao bom seguimento das papeladas relativas ao processo de canonização dos pastorinhos-crianças e, quiçá, de beatificação da lavada ao cérebro mais famosa do século XX, Lúcia de Jesus. Afinal, Ratzinger foi um dos grandes impulsionadores do culto mariano, essa espécie de plasticina teologicamente absurda que lá vai cumprindo a função de disfarçar (mal) a misoginia mórbida da ICAR.
Se a eleição, perdão, escolha de um papa com estas características representará um novo fôlego para a já grande e ameaçadora vaga ultra-conservadora que pretende submergir a humanidade numa espécie de novas trevas ou se, pelo contrário, será um valente tiro no pé da ICAR enquanto figura de proa desse mesmo movimento, isso, passe o chavão, só o tempo o dirá. Como o este senhor já é velhote, pode ser que se apresse a tomar as suas medidas e não tenhamos de esperar muito para ver quais eram, afinal, os insondáveis desígnios do Senhor. |