Realiza-se na próxima sexta-feira o funeral propriamente dito de João Paulo II (aliás Karol Wojtila), líder da ditadura teocrática mais bem sucedida de sempre. Convém que se esclareça que este sucesso se deve, acima de tudo à aplicação de um modelo de expansão que a Igreja Católica (ICAR) inventou há muitos séculos mas que só mais recentemente foi adoptado por outras actividades: o franchising. O segredo da consistência dos resultados, esse deve-se principalmente à inegável coerência de nunca ter diversificado a actividade para outros campos como a limpeza a seco ou a venda de hambúrgueres oleosos, mantendo sempre a sua intenção monopolista na sua área de negócio original, a mediação entre os reles mortais e o seu demiurgo psicótico.
Dentro em breve, virá um substituto, como sempre escolhido de forma obscura e à revelia dos biliões de pessoas cujas vidas serão por ele directamente afectadas, que terá a difícil e ingrata tarefa de tentar ser tão popular como o seu antecessor. Karol Wojtila, recorde-se, adquiriu uma boa parte do seu prestígio através de uma utilização eficaz dos media e de manobras como a do pedido de desculpa público pelos crimes passados da ICAR (renegou alguma inquisição, reabilitou Galileu) naquela que foi uma básica mas eficaz utilização do mais elementar senso comum para branquear a apologia (por via da beatificação) de personagens muito pouco recomendáveis da recente história universal, como o simpático Josemaría Escrivá, que fundou uma ainda mais simpática seita que dá pelo nome de Opus Dei, ou um Papa seu antecessor (Pio XII), que por acaso foi colaboracionista Nazi, para dar os dois exemplos mais conhecidos e elucidativos.
Não se trata aqui de negar as qualidades do senhor, que seriam certamente muitas, principalmente intelectuais, nem é minha intenção desrespeitar os sentimentos das muitas pessoas que por estes dias sofrem sinceramente a dor pela morte de alguém que representava algo de importante para elas. A minha intenção é, como agora se (ab)usa dizer, colocar as coisas em perspectiva, uma actividade particularmente difícil num tempo em que a exploração sentimental-mediática (ou vice-versa) dos sumptuosos e plurais funerais do Papa levam a uma completa anulação do espírito crítico que é bom nunca perder. Por outras palavras, não vou sentir grandes saudades de Karol Wojtila e da sua magnífica obra, nem vejo razões objectivas para que se sinta. E com isto espero dar este assunto por encerrado e não sentir a tentação de blasfemar descontroladamente nos tempos mais próximos. A menos que me provoquem, o que não é assim tão improvável... |