Portugal é um país onde é facílimo ser-se uma “pessoa esquisita”: basta não gostar de futebol, não ser católico, não ser heterossexual, não ter um horário de trabalho convencional, não tirar férias em Agosto, não comer carne, não ter carta de condução, andar a pé sem ter necessidade de o fazer, ser solteiro depois dos 30, não ver televisão ou qualquer coisa irrelevante que só é assunto porque a diversidade em Portugal sempre foi combatida com o silêncio e com o disfarce. Há aquelas coisas que ninguém é e aquelas coisas que toda a gente é. Ponto final.
Este fenómeno tem manifestações cómicas (a quantidade esmagadora de “católicos não praticantes”), manifestações chatas (olha-se à volta e está tudo vestido com as mesmas roupas) e manifestações tristes, caso do número assustador de pessoas que tem como única forma de ocupação do seu tempo mental livre um desporto que há muito deixou de ser um jogo para passar à categoria de jogatana que mantém os seus adeptos num estado de irritação, indignação, frustração e truculência permanentes. Isto não tem nada que ver com o jogo do Sporting de ontem à noite, cujos pormenores desconheço, mas hoje sinto-me particularmente feliz por não ser vítima daquela forma particular de stress que é a angústia da bola. É bom ser esquisito. |