Portalegre, cidade pela qual me detive um pouco mesmo pouco durante o último fim-de-semana, é o exemplo perfeito do meu conceito inovador de “camadas de ausência”. Uma camada de ausência é uma ausência de acção que permanecerá quando sobre ela for colocada nova camada/acção. Uma camada de ausência fica lá para sempre, é um vazio que nunca será preenchido, contrariamente à simples ausência que é preenchida quando sobre ela se coloca alguma coisa. É óbvio para o visitante arguto e esclarecido (eu) que o “ordenamento” urbano de Portalegre é feito de várias camadas de ausência cujos efeitos se vêem e sentem bem e que o escavacamento a que o Programa Pólis presentemente sujeita a cidade não contribui para aliviar.
À partida, nada de novo: uma cidade que necessidades do tempo em que os animais falavam fizeram com que fosse construída nos últimos montes de uma serra. Noutros locais do planeta, o desaparecimento dessas necessidades (militares, por exemplo) levou a que o desenvolvimento das cidades inicialmente construídas de acordo com aquele modelo passasse a ser feito nas zonas planas. Em Portalegre, como de resto na generalidade das cidades portuguesas em que isto é aplicável, o desenvolvimento continuou a ser feito às custas da densificação dos montes já ocupados e de novas construções nos montes adjacentes. O resultado, sobejamente conhecido por todos vós meus caros e caras, tem em Portalegre um verdadeiro parque temático: a cidade verdadeiramente inutilizável em que nem se consegue andar de carro nem se consegue andar a pé.
Pergunto-me se já terá passado pela cabeça de algum dos autarcas daquela cidade que aquilo não é coisa que se apresente. Já nem falo só do estacionamento anárquico, problema irresolúvel em qualquer localidade pequena, em que à tradicional falta de educação dos portugueses (condutores ou não) se junta a benesse de toda a gente conhecer alguém no posto/esquadra que lhe tira as multas. Acabado de chegar, verifiquei horrorizado que não só iria ter de parar em cima do passeio (coisa que devo ter feito 2 ou 3 vezes ao longo dos meus 12 anos de encartado e mesmo assim só por poucos minutos e em situações de grande aperto) como que iria fazê-lo sem quaisquer problemas de consciência. Que raio de diferença é que fazia? O bocadinho de passeio, transformado em estacionamento mesmo na parte em que a rua era suficientemente larga para não ser necessário incorrer nessa infracção, era isso mesmo, um bocadinho isolado de passeio. O resto da rua, sem passeio, tinha o lado em que era permitido estacionar completamente livre e o lado em que era proibido estacionar completamente preenchido por carros estacionados. A razão era simples: o lado em que se podia estacionar era o esquerdo, onde a ausência de passeio tornaria difícil a saída dos condutores... Mas também falo da permissão para se circular nos dois sentidos em ruas em que o mais elementar bom senso obrigaria à proibição pura e simples da circulação automóvel. Portalegre é patrocinada pelos fabricantes de espelhos retrovisores.
As obras do Pólis, que irão trazer à cidade a modernidade por que os seus habitantes anseiam ao ponto do enfarte do miocárdio, também estão a ser realizadas ao melhor estilo local, com farta lixarada e ausência de espaços para circulação das pessoas. Quem viva em Portalegre e se veja de um dia para o outro confrontado com a necessidade de andar de cadeira de rodas tem 3 opções: mudar-se, suicidar-se ou conformar-se com a impossibilidade de sair de casa. Também não é nada de original, mas ali pareceu-me ainda pior que o costume.
Portalgre, cidade encimada por mais um horroso pinhal (afinal não ardeu tudo num destes verões em que jornalistas e presidentes de câmara disseram que tinha ardido tudo), que tem por estes dias alguma vida emprestada por grupos de estudantes de fato académico que festejam uma Queima das Fitas de programa ignoto (e que suspeito não ser magnífico), não tem, tanto quanto me pude aperceber, e embora seja cidade e capital de distrito, Zara nem McDonalds. Portalegre, cujo comércio se divide quase exclusivamente entre lojas de aspecto antigo e lojas de aspecto velho e onde, parece, volta e meia há cinema, não vale muito a pena. Ainda por cima, a pensão onde fiquei (São Pedro – fixem bem o nome) era uma nojo. Portalegre, que me perdoem os vários milhões de portalgrenses que aqui se dirigem todos os dias ávidos das minhas palavras é, digamos, sofrível. Apreciem ao menos este meu esforço de contenção. Enfim, é branquinha e tem para lá uns monumentos e assim. |