Ele certamente não desconhecia a forma direita de fazer as coisas e, portanto, que a ironia não deve nunca ser anunciada. Como ele mesmo poderia ter dito se alguma vez tivesse falado do assunto, a ironia terá quanto muito de ser subtilmente notada após ser proferida nos casos em que disso dependa uma desejável posteridade. No entanto, para desconcerto dos muitos que nunca ousaram falar-lhe disso com propósitos de esclarecimento, ele anunciava as suas ironias sempre que a ocasião se prestava, ou seja, a toda a hora. Não era nada que lhe poluísse o discurso, sempre claro e divertido, didáctico mas descomprometido, era só aquela dissonância de uma táctica mal utilizada por parte de quem não costumava dar-se a tais descuidos.
Um dia, sem que nenhum facto conhecido o explicasse, deixou de anunciar as suas ironias. Nada mais mudou, a não ser a atenção redobrada com que todos passámos a ouvi-lo na tentativa de detectar uma explicação para aquela alteração mínima e insidiosa que chegou mesmo, durante uns tempos, a ser assunto de conversas fugazes sempre que ele não estava presente. Até hoje, e já lá vão uns anos, não tenho notícia de que alguém tenha percebido o que se passou. |