Estremeci quando vi que o tema de capa daquela revista chamada Xis que vem com o Público ao Sábado e que pretende dar-nos a todos e todas coisinhas (quaisquer coisinhas) a que nos possamos agarrar era, nada mais, nada menos que "Compreender o ateísmo". No interior da revista, o tema/dossiê “Ser ateu” é composto por 2 "artigos" (chamar-lhes-ei assim por conveniência de exposição) e uma entrevista, tudo da responsabilidade de Inês Menezes, que presumo jornalista daquela simpática publicação. Como já se está mesmo a ver, os artigos são feitos como hoje é feita a quase totalidade do jornalismo: com base em fontes contactadas para o efeito, de preferência não muitas, cujas palavras são depois convertidas em texto da autoria da jornalista. Neste caso, é exactamente isso que se passa, com a vantagem, justiça seja feita, de que as fontes são assumidas: Michel Renaud, "professor catedrático, membro do Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa", e Vasco Pinto Magalhães, jesuíta "responsável pela formação inicial dos jesuítas e autor de vários livros sobre fé". Este último é também a outra metade da entrevista acrítica e de uma página que é feita a um "especialista na matéria".
Perante este cenário de entrega total de um dossiê sobre o ateismo a um membro do Instituto de Bioética da Universidade Católica e a um padre jesuíta, o que é que se entende dos títulos "Compreender o ateísmo" e "Ser ateu"? Entende-se que esta "compreensão" é aquela compreensão paternalista de quem desculpa os defeitos dos outros e que "Ser ateu" (ou agnóstico ou simplesmente laico, tudo colocado mais ou menos no mesmo saco, o que a mim até nem me incomoda) é ser portador de uma insuficiência muito frequente nos dias de hoje. Ser ateu/agnóstico/laico é, e isto percorre subliminarmente as 8 páginas cheias de certezas do dossiê da Xis, uma doença. Nós, os ateus/agnósticos/laicos, coitadinhos, estamos doentes e, presume-se, não devemos ser maltratados, até porque o ateismo pode ser saudável em circunstâncias muito específicas. Quais? Ora aqui vai a estrela maior do firmamento, fruto da colaboração Michel Renaud/Inês Menezes, e que dá uma boa ideia do tom geral da coisa:
Quando as imagens de Deus são idolatradas, o ateísmo é saudável e quase desejável. Para além disso, o ateísmo deve ser encarado como a possibilidade que todos os seres humanos têm de aceitar ou recusar Deus, sobretudo se e quando existe uma falsa imagem de Deus.
Sendo assim, muito obrigado, pela parte que me toca! A possibilidade de Deus não existir não é sequer colocada, a possibilidade de Deus existir mas não na forma em que os autores do artigo acreditam muito menos. Para que se saiba, a imagem verdadeira de Deus, tal como é estabelecida pelo Público, é a de um “Deus pessoal ou como entidade”. Isto para que aqueles que julgavam que lá porque acreditam na existência de uma energia universal está tudo bem se desenganem: isso não passa de “uma certa forma de espiritualismo” que existe "em determinadas filosofias contemporâneas". Nada de sério, portanto.
O que me irritou mais nesta farsa é que os dois senhores que podem ser considerados os verdadeiros autores do dossiê até nem dizem só disparates: as opiniões deles podiam ser interessantes no contexto de uma discussão saudável sobre a fé e o ateísmo. No entanto, aquilo que até podia ter sido um bom momento de jornalismo, coisa que de resto é cada vez mais rara, acabou na forma de um panfleto miserável contra, não só a ausência de crença em Deus, mas também as crenças em Deus diferentes das dos autores. O que é verdadeiramente nojento é isto passar-se debaixo daquela capa de açúcar, daquele "somos tão bonzinhos e boazinhas, tão compreensivos, tão prontos a desculpar os anormais que não pensam como nós". O mais preocupante, é já nem se darem ao trabalho de disfarçar para quem fazem os fretes. |