Mas quem me mandou a mim falar? Ele já deve ter começado a fazer interpretações. Eu não lhe admito interpretações, ele conhece-me. Mas eu sei bem que interpretações ele anda a fazer, ele pensa que são todos como ele. Ele pensa que eu sou como ele, que fico a pensar nos segundos sentidos em vez de dizer as coisas. Ele acha que percebeu alguma coisa. Ele acha que é muito esperto.
(É este chouriço de Arganil aqui... sim esse, e 200 de fiambre, se faz favor. Cortado fininho)
As pessoas pensam todas a mesma coisa, pensam todas a mesma coisa! Não podem ver nada que vagamente se pareça com coiso que põem logo em acção os preconceitos, que é o caminho mais fácil. Mas o que é que elas têm a ver com isso? E meterem-se na vida delas? E ele não é diferente. Ele julga que é diferente, mas não é, é como toda a gente, pensa o mesmo que toda a gente e o meu erro foi pensar que ele era diferente e falar sem restrições. Ou quase. Desabafar. Dar-lhe indícios, foi o que foi! É claro que lhe pareceu logo que eu estava a coiso. Ele é igual a toda a gente e eu devia saber isso desde o início.
(Não, não tenho os 23. E 50 dá-lhe jeito? Pois, mas só tenho assim ou 50)
Eu bem vi pelo olhar dele, aquele sorriso que se deixou ficar. Eu sei muito bem do que é que ele estava a rir. É claro que quando eu falei daquilo ele pensou logo que... Eu não lhe admito que ele interprete, o que eu digo é como é e não tem nada que ser filtrado pela mente porca dos outros. Nem mesmo pela dele. Olha ele! Logo ele! Tão desempoeirado, tão noutra onda, tão numa league of his own, mas no fundo é igual ao resto!
(Não, obrigado. Sim... Pois, mas não, obrigado)
E eu ainda por cima falei-lhe daquilo umas 300 vezes. Não me sentia à vontade para falar daquilo com mais ninguém e então falei, falei, não falei doutra coisa. Porra! Mas por que é que eu não me calei. Agora deve estar a rir-se, a pensar que eu ando a coiso. Mas eu ponho-o no lugar. Se ele julga que isto é assim está muito enganado! Ai está, está! Ele vai ver! Ele que venha cá outra vez que eu conto-lhe! Ou não lhe conto! Eu não lhe conto é mais nada! Há-de esbarrar com um muro de silêncio. Ele que interprete isso, o silêncio, já que é tão esperto! Indiferença, meu filho, indiferença! Eu não lhe digo é mais nada! É bom dia e boa tarde! Ele, se tiver alguma coisa a dizer, que diga, que é assim que as pessoas a sério fazem! |