«A má vida era horrível mas ao mesmo tempo era muito lindo! Acho que quem teve essa ideia peregrina, a primeira que teve essa ideia peregrina foi a Madame de Gaulle, mandou tirar todos os urinóis de Paris. Agora para mijar tem de se ter uma moeda, não é? Entrar no café, meter a moeda e fazer o chichi. Urinóis, não há. A mulher tinha um bocadinho de razão, porque era assim: às vezes um gajo estava muito aflito para fazer pipi, mas o urinol estava cheio de gente que não saía nunca (ri). Bom, e aqui aconteceu o quê? Desapareceram os urinóis que eram o centro de... havia um urinol genial no jardim Constantino, um urinol delicioso. Olha, eu estou a dizer isto mas sei que estou num país em que estas coisas não se podem dizer, não podem!»
[Mário Cesariny, Verso de Autografia]
Agora que o Mário fala nisso, e só agora que o Mário fala nisso, recordo-me de como havia, no Jardim Constantino onde passei boas horas da minha infância lisboeta, um lado a que estava terminantemente proibido de ir. Nunca soube, nunca me questionei ou talvez me tenha contentado com alguma justificação daquelas que se dá às crianças, nunca mais me lembrei. Até que veio o Mário e falou no assunto e houve qualquer coisa dentro da minha cabeça que se moveu para deixar passar esta lembrança com perto de 30 anos e um sorriso honesto e claro como já não há tantos. Não lhe vou agradecer, Mário, porque já não há lugar para essas coisas. Mas é só por isso.