Notas avulsas sobre o aumento descontrolado de peso
Eu percebi que estava a ficar gordo quando olhei para o mostrador da balança e fiquei na dúvida: aquilo é o meu peso ou a frequência da Antena 2? Da análise da balança resultou que ela, como eu já desconfiava, não tem rádio incluído e que, portanto, aquele valor era um alerta muito pouco subtil.

Eu percebi que estava a ficar mesmo gordo quando me foi noticiado que daqui a 6 quilos o meu Índice de Massa Corporal (IMC) será de 30, valor que corresponde à tão temida “obesidade” (abaixo dos 25 fica a desejabilidade e entre estes dois valores fica o meu actual “excesso de peso”). Se os próximos 6 quilos custarem tanto a ganhar como os últimos 6, temos festa mais cedo que o previsto.

Mas quem é que construiu o IMC? Qual é a credibilidade de um índice destinado a avaliar a justeza das dimensões corporais das pessoas construído numa época que sonha e se baba com a anorexia adolescente? Alguém já se interrogou seriamente sobre se o IMC tem alguma espécie de credibilidade? Aposto que não.

Uma pessoa que engorda porque deixa de fumar devia ter direito a uma denominação diferente. Obeso. Obeso. A própria palavra escorre banha por entre os fonemas. Não é justo caracterizar desta forma uma pessoa que está a passar por este problema de forma transitória (repito, transitória) como forma de atingir um grau mais elevado de pureza higiénica e moral. E “adiposo” ou “gorducho” também não servem, por razões diferentes mas óbvias.

O mais curioso é que a obesidade dos outros nunca me incomodou, a não ser naqueles casos mórbidos em que uma só pessoa ocupa o elevador todo. Mas comigo, que ainda estou a umas centenas de quilos desse ponto, é isto que se vê.

A partir de agora só compro roupa em lojas cujas cabinas de prova sejam almofadadas. O falhanço das tentativas de vestir os meus antigos números deixa-me com uma abertura preocupante à possibilidade de auto-mutilação. Foi o que aconteceu há dias, quando reparei que não havia calças abaixo do 44 que me servissem. Felizmente, para mim e para a gerência, o cabide era baixo e frágil demais para permitir uma tentativa de enforcamento com alguma dignidade.
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