Querido diário
Primeiro, fui confrontado com os dados cujo tratamento estatístico, essa actividade pertencente à minha idade média profissional, ficará ao meu cargo. Os ficheiros são tão grandes que o Excel não os consegue abrir em condições. Fiquei a saber que o Excel não é amigo de folhas com mais de 65000 (sessenta e cinco mil) linhas, ao passo que a mais pequena das que terei de amamentar e criar até se tornarem alguma coisa na vida tem 99000 (noventa e nove mil). O povo é sereno.

Segundo, a colisão entre a música ambiente daquele impensável shopping centre (Scorpions!?) e a música ambiente oriunda dos confins da Pans & Company. Senti-me um bocado atarantado e cheguei a pensar em exigir que alguém tratasse do assunto, caso contrário iria pedir uma baguete Riviera e uma cola laite de 40 cl a outro sítio qualquer.

Terceiro, Colisão, de Paul Haggis, que me pareceu melhor nas suas intenções pedagógicas que como filme (aliás, o descaramento daquelas obstruem um pouco a elegância tentada deste), mas que me deixou um tudo nada incomodado. Apanhou-me em mau dia, sei lá, se calhar estava a precisar de doces.

Quarto, atropelei um animal, provavelmente um gato, que estava especado a seguir a uma curva, às escuras, no meio da estrada. Tentei desviar-me, consegui não lhe passar por cima, mas o barulho seco da pancada deu-me cabo do que havia para dar cabo. Ainda por cima depois daquele filme. Ainda por cima provavelmente um gato. Tremeliquei até à escapatória mais próxima, saí do carro para verificar que não havia estragos, voltei para o volante e regressei para uma passagem mórbida pelo local do acidente. O local do acidente é um local onde não é possível parar para nada: o meu objectivo era simplesmente o de ver os resultados. Podia ao menos não ter consciência disto. Mas não havia animal nas redondezas e permito-me pensar que não lhe terá sucedido nada de demasiado mau. E talvez fosse um coelho, uma lebre. Não é que melhore muito, mas sempre melhora alguma coisa.

Quinto, as vantagens de se viver na parolândia. Ar puro, pouco trânsito e uma Câmara Municipal que resolveu animar a noite ao povo pré-autárquico com uma banda de versões (os 5ª Dimensão, pareceu-me) estrategicamente colocada a uns metros da janela do meu quarto. O reportório, ecléctico, levou-os a (perdoem-me as incorrecções, mas até para mim isto é tudo velho demais) «Portugal na CEE», «Chico Fininho», «Cairo», «Eu não quero ir à máquina zero», «A ponte é uma passagem», «Se cá nevasse fazia ska ski», «Chamem a polícia» e, claro, o sempiterno «Patchouli», entre outros grandes êxitos do Paleolítico Superior. Mais trágico e verdadeiramente imperdoável é que nem sequer tocavam mal, ou seja, não tinham mesmo piada nenhuma.
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