A minha olaia, tal como o meu sobreiro, não é minha. A minha olaia está numa aldeia que é atravessada pela estrada onde passo quase todos os dias, num espaço de terra batida entre casas. É um espaço onde às vezes se estaciona. Eu próprio já lá parei algumas vezes para atender telefonemas e no entanto só hoje reparei que lá estava a minha olaia. Ou então já tinha reparado e depois esqueci.
A minha olaia, a que eu também poderia chamar a minha árvore-de-judas e a quem os versados em botânica chamam a Cercis siliquastrum deles, não é como tantas que por aí se passeiam, simpáticas e frívolas: a minha olaia é grande e exibe por estes dias uma quantidade respeitável de vagens castanhas penduradas dos seus galhos. A minha olaia tem todo o ar de quem deve florir profusamente quando lhe dá a Primavera, o que torna a minha distracção ainda mais indesculpável. A minha olaia não será esquecida para o ano que vem porque eu irei reparar nela, mesmo que mais ninguém o faça.
Mas não se pense que a minha olaia vai substituir alguém. A minha olaia não subtrai afectos nem divide a minha atenção. A minha olaia só sabe de matemática o suficiente para somar e multiplicar, como é próprio das árvores típicas das regiões mediterrânicas, desde sempre conhecidas por serem mais dadas às letras que aos números. |