São 4 da manhã e o Inspector Rousseau continua às voltas na cama. A visão da rapariga a quem comeram partes seleccionadas do corpo impede-o de dormir. Tantos anos a ver o pior de que os humanos são capazes na cidade deveriam tê-lo tornado imune à insónia, pensa, mas aquela imagem não parece disposta a abandoná-lo tão cedo. O calor húmido que ao longo do dia e da noite foi escorrendo da rua para o interior do quarto não ajuda. Já tentou ler, há umas horas, mas viu as letras dos livros em que ousou pegar tapadas pela visão daquele corpo jovem mutilado. Também tentou ouvir música, que pelo menos lhe permitia a escuridão, mas cada nota ostentou o seu parentesco remoto com o som das varejeiras que, com a entrada da polícia, tomaram conta do espaço aéreo da sentina onde estavam os restos da rapariga. Inquieto, o inspector Rousseau começa a acariciar-se, mas, perante a ausência de resultados satisfatórios, decide parar tudo completamente por uns minutos, como se fosse um crocodilo. Depois de algum tempo morto para o mundo, liga o candeeiro da mesa de cabeceira, inspira fundo e levanta-se num só movimento. Sem hesitar, mas ruminando maldições acerca da falta de bebidas alcoólicas em casa, dirige-se ao quarto de banho, abre o armário de parede e tira de lá o frasco de after shave barato que alguém lhe ofereceu numa ocasião qualquer, provavelmente há muitos anos. Bebe-o de um só golo, fecha os olhos e deixa-se cair teatralmente no chão de mosaico, o mais frio da casa. O jejum de muitas horas tratará do resto e amanhã é um novo dia. |