Ia ser uma linda posta. Ia começar por dissertar brevemente sobre o interesse que teria uma análise histórica e sociológica dos pequenos anúncios, ou «classificados», ao longo dos últimos 100 anos. Num segundo momento, avançava algumas hipóteses e propostas que, embora vagas, poderiam conduzir à construção de um quadro de análise para o estudo em que situava a questão relativamente ao período histórico do Estado Novo, uma escolha motivada pelas consequências maiores que a longevidade e dureza desse regime teve na evolução das mentalidades em Portugal.
De seguida, tecia algumas considerações num registo mais informal, mas também elas situadas historicamente, acerca da de como alguns problemas que dantes julgávamos resolver são problemas que hoje fingimos já não ter, considerações essas em que cabiam duas ou três brejeirices perfeitamente passáveis em horário nobre, mas com muita piada, acreditem. Tudo isto era ilustrado com a imagem abaixo.

ABC - Revista Portugueza, 31/05/1928
Mas eis que durante o processo de escrita começou a turvar-se na minha atormentada cabeça a distinção, que à partida tinha como radical, entre «cinismo» e «candura». E foi-se turvando, turvando, turvando cada vez mais até formar uma massa indiferenciada que me impediu por completo de organizar as ideias e produzir texto que se visse. E então tive de parar. Desculpem lá o mau jeito. Pode ser que um dia destes volte ao assunto, mas se calhar é melhor não contarem muito com isso.