Um programa prometedor para o fim da tarde de ontem: tirar as fotografias que irão ilustrar o trabalho do Paulo sobre os «modos de sociabilidades e de apreensão e de consumo do espaço urbano da cidade de Coimbra por parte daqueles que se identificam como homossexuais». Ou seja, fotografar manifestações explícitas de carinho do Paulo e do Daniel em alguns locais públicos emblemáticos da cidade. Embora o objectivo não fosse o de provocar o escândalo (pelo menos é isso que nós dizemos), havia a consciência de que, sendo Coimbra uma cidade onde a prática da beijoca e do amasso entre pessoas do mesmo sexo não é comum no meio da rua, a sessão poderia causar algumas reacções mais silvestres, por assim dizer. Falámos disso e previmos que a ocasional boca foleira seria uma inevitabilidade, mas o linchamento na via pública não seria muito provável. Afinal, é só Coimbra, é só Agosto, é só um fim de tarde. E lá fomos.
Chegámos ao fim da sessão incólumes e divertidos. Não levámos nas trombas e, pasme-se, não houve um único burgesso a disparatar com espalhafato. Houve os risinhos (especialmente nas zonas mais carregadas de turistas), os comentários discretos ao ritmo de olhares de esguelha, a ocasional expressão de repugnância, mas labreguice da grossa não houve. E eu, atacado por aquele torpor acrítico que por vezes toma conta de mim, fiquei contente. Sim, é assim tão mau: contente.
É aqui que entra a parte em que eu estava a guiar de volta para casa. A guiar de volta para casa é quando costuma pousar-me no ombro o grilo falante, que ainda por cima é um animal que me mete um certo nojo. E desta vez, estava eu com a atenção dividida entre a estrada e a lua gigantesca e incandescente que começava a nascer, o grilo veio ter comigo especialmente furioso.
«Contente? Com que então estás contente! Contente com o quê? Com o Portugal que não diz na cara? Com o Portugal que se escandaliza baixinho? Com o Portugal que te lixa pela calada? Com o Portugal que acaba contigo quando não estiveres a olhar, de preferência de tal maneira que depois possa sempre dizer que não foi ele? Com o Portugal onde até há progressistas que são muito a favor, mas agora não porque, lá está, não são esses os problemas do país? Com o Portugal que não tem nada contra mas ou tu fazes o jeito de fingir que coiso e tal ou não te arrenda o apartamento, te expulsa do bar, arranja um pretexto para não ter que te falar mais, se recusa a receber o teu sangue -- e tu, meu grande palhaço, entras no jogo e finges? Olha que bom que ninguém mandou bocas, que descansadinho que tu ficaste!»
E lá se foi o contentamento. Raios partam o grilo, raios partam. Já não o posso ouvir. Ainda por cima fala um bocado alto. Um dia destes, quando ele não estiver a contar... |