Explicaram-lhe detalhadamente como funcionavam as coisas. Ele passou o tempo da explicação, que não foi pouco, concentrado na luta que a sua língua travava com as fibras de nectarina verde que se tinham entalado entre o canino e o incisivo sobre o qual aquele se encavalitava. Perante a incapacidade de dividir a atenção, fingiu-a através de pequenos sinais de assentimento propiciados pelas pausas e entoações dos outros. Não conseguiu evitá-lo e teve vergonha de pedir que aguardassem até ele resolver aquele problema, mesmo sabendo que, se avançasse para essa atitude, poderia ver-se livre dos restos de nectarina com outra rapidez e comodidade. E eles continuaram a falar, a explicar, a acrescentar detalhes, enquanto ele pressionava obsessivamente a língua contra o interstício dental ao qual, simultaneamente, aplicava o máximo de sucção que lhe era possível sem produzir ruídos suspeitos.
Conseguiu ser tão eficaz que agora toda a gente garante que ele estava atento, que não houve nada de estranho no seu comportamento, que deu sinais de inequívoca compreensão dos assuntos expostos. Agora, evidentemente, ninguém se responsabiliza pelo que aconteceu, mas também não interessa porque já não há nada a fazer. |