Atormentado pela consciência recente de que, contrariamente ao que o diminutivo faz pensar, a sua vidinha é que é literal, ao passo que a sua vida é toda em sentido figurado, o Inspector Rousseau olha fixamente para o cadáver estendido no átrio do prédio, mas não o vê. Ao seu lado, um jovem agente debita, atabalhoado, as informações que foi possível recolher: nome, morada, profissão e duas ou três banalidades acerca das rotinas mais evidentes da vítima. As razões por que terá sido esventrado, aparentemente com a faca de titânio com garantia vitalícia da TeleShop que o presumível criminoso deixou ao lado do corpo, são ainda desconhecidas. Mas o Inspector Rousseau não quer saber de mortes para nada enquanto não conseguir olhar com outros olhos para sua própria vida. Vidinha. Vida. Vidinha. Vida. Vidinha. Uma delas, pelo menos. |